Crise 2.0: A Pletora do Capital

 

 

Espanha, não há vagas - Foto: JAVIER LIZÓN (EFE)

 

A primeira questão que deve ficar claro para quem lê esta série sobre a Crise 2.0, é que a Crise se dá no pico da produção de Capital, na superprodução, como nos lembra Marx, a “crise é a pletora do Capital”, no pleno sentido médico, da superabundância, portanto, para que não haja dúvida sobre o movimento e a linha que seguimos aqui, este esclarecimento é fundamental. Partindo deste ponto, olhamos o mundo, sua conjuntura desde o centro do sistema, de onde o Capital determina todas as relações econômicas, políticas e sociais..

 

A grande crise que atingiu o coração do sistema, se deu precisamente nos EUA, por volta de meados de 2005, tendo seu ponto “visibilidade”  no final de 2007 até setembro de 2008, período que corresponde a quebra de todos os principais bancos de crédito imobiliário e o Lehman Brothers que tinha se especializado em alavancar as hipotecas, num movimento especulativo sem fim. Desde 2005 até hoje, os EUA têm um déficit de 5 milhões de empregos, descontada a inflação, os preços e o PIB dos EUA apenas este ano será maior que o daquele ano, mesmo assim há dúvidas nesta recuperação. São 7 anos de queima de capital, condição fundamental para se retomar um novo ciclo de produção capitalista, caso não haja uma ruptura revolucionária neste “vale”.

 

Noutro centro do Capital, a Europa, mais especificamente a Zona do Euro, ainda mais particularmente a Alemanha, parece se livrar dos efeitos da crise, é mais uma falsa ideia, a Crise é precisamente lá, enquanto os países secundários caem desesperadamente, mais a Alemanha cresce, ao meu ver, mais fica encurralada. Os países mais pobres,de baixo PIB, como Irlanda, Portugal e Grécia, que juntos não chegam a 4% da economia do Euro, mesmo causando certo estrago não abalaria a Europa como um todo.

 

Mas a questão não se restringiu a eles, o efeito em cadeia agora levou ao solo Espanha e ameaça também derrubar de vez a Itália, agora sim, economia com alto porte, que representam mais de 25% do PIB da UE. A Alemanha, seu sócio menor, a França, dirigem os rumos da Crise, com um desequilíbrio violento na lógica de funcionamento da Zona do Euro, os países se tornaram completamente dependentes da Alemanha, sua poderosa indústria e de seus bancos, em parte também da França. Os banqueiros dos dois países são credores majoritários das dívidas de Espanha e Itália, assim como eram de Irlanda, Portugal e Grécia. Aqueles empréstimos dados a estes países no fundo servem apenas para garantir os créditos de Alemanha e França.

 

O que observamos agora na Espanha ( Crise 2.0: Espanha em Chamas – um Roteiro ), não é a Crise do Capital, sim seus efeitos danosos, o corte violento de forças produtivas e de valor. O desemprego massivo, que saltou de 7,95% em 2007 para 24,65% , entre os jovens chegou aos 53,28%, agora em junho de 2012, é a parte visível da miséria que os trabalhadores são submetidos pelo Capital. 400 mil imóveis foram retomados de 2009 até junho de 2012, 300 mil por inadimplemento  de hipotecas e 100 mil por não pagamento de aluguéis, gerando um imenso contingente de famílias que subdividem casas e apartamentos, no pior dos casos os sem tetos. Situação análoga ao que acontece em Atenas com mais de 50 mil sem tetos.

 

Dados do El País

 

 

As províncias e regiões autônomas entram em pré-falência, pois o Governo Central retomou para si o orçamento, além de cortar ou determinar cortes locais, o ambiente beirou ao caos esta semana, quando os índices de prêmio de risco e de yeld bateram recordes. Houve um pequeno alívio com a promessa do BCE de intervir, não para salvar Espanha, mas para Salvar o EURO, o Capital, que fique bem claro.  Como diz o Presidente da UE, o português Durão Barroso falando sobre a Grécia e os planos de austeridade, foi direto ao ponto  “A palavra-chave é: entregar, entregar, entregar. O principal assunto é: implementação para entregar resultados”.

 

Diante do quadro extremamente deteriorado a Alemanha não pode mais se colocar à margem, apenas se alimentando da desgraça geral, uma ação coordenada pelo BCE, citada pelo Le Monde, teve uma resposta lacônica do porta-voz de Merkel: “O presidente do BCE disse que a instituição fará tudo que for necessário para preservar o euro e o governo fará tudo que for politicamente necessário para preservar o euro”, afirmou Georg Streiter, porta-voz do governo alemão, durante coletiva de imprensa. “O BCE está fazendo sua parte e o governo federal está fazendo sua parte”.

 

Por outro lado, segundo El País, o  corrupto banco inglês Barclays( manipulava as taxas com a conivência do BC inglês), retira capital de sua filial espanhola, com temor de que a Espanha saia da Zona do Euro. Os ratos são os primeiros a fugirem do navio à deriva. Mas o que demonstra é que a situação é limite, com pouca margem de manobra. O centro do poder, a Alemanha, tem que se mexer, não tem como ser diferente. Um resgate total e humilhante da Espanha, pode causar rupturas internas, com revolta nas províncias, como também externa, num ódio extremado ao Euro.

 

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