Orfeu

 

 

Desde ontem venho pensando em voltar a tratar do mito de Orfeu, que falei de forma rápida, dentro de um contexto, quase incidental, no post Ciúme Mortal, sem entrar em maiores detalhes do complexo mitologema dele. A sua imensa paixão por Eurídice tantas vezes cantada, interpretada e recriada, prova da força e dimensão do mito, a imagem de sua cabeça, já sem o corpo, que fora despedaçado, ainda a repetir o nome de sua amada, que ecoa de um lado ao outro do rio Hebro, ficou na minha mente, nestes dias mais ainda, sem uma razão certa do por que.

Orfeu, filho de Calíope, a mais importante das nove musas, em enlace com rei Eagro, na muitas variações o rei é substituído por Apolo, o que seria seu pai mítico, em oposição ou complemento ao pai mortal. Logo Orfeu se identifica pelo lado materno com a música, o canto, pelo lado “paterno” com a lira e  a cítara, que se atribui a ele a introdução de mais duas cordas, totalizando as nove, em homenagens às musas. Seu enorme talento musical, tanto tocando instrumentos, como sua bela e suave voz, acalmava e enternecia os mais ferozes animais, a natureza parava para ouvi-lo, num transe único.

O herói trácio, teve longa iniciação nos mistérios, tendo vivido em várias partes do mundo, numa longa formação religiosa, que incluiu o Egito, que trouxe para Grécia a ideia da expiação das faltas e dos crimes,  o que no futuro, uma religião saída do judaísmo beberá da mesma fonte, além do conceito de vida eterna, imortalidade da alma, entre outras coisas, que o cristianismo absorveu do orfismo.  Orfeu fez parte da grande aventura dos argonautas( Jasão, Medéia e os Argonautas), ao retornar dela, casou-se com sua metade da alma, a bela ninfa Eurídice. Um amor intenso e eterno, que teve sua convivência física abreviada quando o apicultor Aristeu tentou violar Eurídice, esta em fuga pisa numa serpente e é morta por sua picada.

Desesperado Orfeu, desce ao Hades, o mundo inferior, armado apenas com sua cítara e a bela voz, vai encantando a todos no infernum, os perigos cessam até que ele chega frente a frente com Plutão e Perséfones, que comovidos diante de tanto amor, permitem que ele leve sua esposa, mas com uma condição: Ele irá à frente sem poder olha para trás, só deve virar-se quando atingir o mundo dos vivos. Tomado pelo pavor de não ser seguido, assim como a esposa de Lot, ele olha para trás e verá sua esposa morrer pela segunda vez. Aqui está claro que se trata de um rito iniciático, uma catábase, uma descida, para cumprir um signo, conhecer a vida além da morte, que se completa com sua anábase, a subida, como o herói ainda não estava plenamente preparado ele olha para trás, atitude que o orfismo repudiará no futuro, pois ele tem o desprendimento total.

Como Junito nos ensina, há um longo significado do “olhar para trás”, mas precisamente  o tabu das direções,  como dos pontos cardeia, com simbologia tão rica, assim nos apresenta a questão o mestre: “O matriarcado sempre deu nítida preferência à esquerda: esta pertence à feminilidade passiva; a direita, à atividade masculina, já que a força está normalmente na mão direita e foi, através da força, da opressão, que a direita, o homem, execrou a esquerda, a mulher. O tabu dos canhotos sempre foi um fato consumado. Diga-se, aliás, de passagem, que um dos muitos epítetos do Diabo é Canhoto. A superioridade da esquerda estava, por isso mesmo, ligada ao matriarcado, entre outros motivos porque é a noite (oeste) que dá nascimento ao dia, lançando o sol de seu bojo, parindo-o diariamente. Daí, a cronologia entre os primitivos ser regulada pela noite, pela Lua; daí também o hábito, desde tempos imemoriais, da escolha da noite para travar batalha, para fazer reuniões, para proceder a julgamentos, para realizar determinados cultos, como os Mistérios de Elêusis e o solene autojulgamento dos reis da Atlântida”.. .

Donde dirá, ainda,  Junito:  “É assim que olhar para a frente é desvendar o futuro e possibilitar a revelação; para a direita é descobrir o bem, o progresso; para a esquerda é o encontro do mal, do caos, das trevas; para trás é o regresso ao passado, às hamartíai, às faltas, aos erros, é a renúncia ao espírito e à verdade.[…]Orfeu foi o homem que violou o interdito e ousou olhar o invisível. Olhando para trás e, por causa disso, perdendo Eurídice, o citaredo, ao regressar, não mais pôde tanger sua lira e sua voz divina não mais se ouviu. Perdendo Eurídice, o poeta da Trácia perdeu-se também, como indivíduo, como músico e como cantor. É que a harmonia se partiu”.

Como dissemos outrora sobre a morte de Orfeu, que ao perder Eurídice, ele se recusa a amar qualquer outra mulher, o que leva as  Mênades a despedaça-lo, o que também tem um profundo conteúdo iniciático, o jovem aprendiz é simbolicamente despedaçado, assim “renasce”, preparado para vida e uma nova jornada. Até a separação da cabeça, crânio também serve a este proposito, pois é nela que reside a psiquê, ou melhor o inconsciente, para os antigos a consciência morava no peito, precisamente no coração. Assim a alma, ter-se-ia liberada ao se separar corpo e cabeça, num rito único para os iniciados nos mistérios.

Derivado dos cultos à Orfeu uma rica coleção de ritos individuais, em oposição a religião estatal coletiva, dedicada a Apolo ( Apolo – O Exegeta Nacional), enquanto este prega o rito, quase sem fé uma união cívica, religião-estado-sociedade, com suas festas e tradições. No orfismo há uma valoração individual, nas ações terrenas que lhe garantirá um pós-morte digno de frequentar um patamar, que não a mansão dos mortos, uma escatologia, não vista no panteão grego. A purificação apolínea, de perdão ao homicídio, era uma continuidade do “bem viver”, enquanto a visão de purificar-se em Orfeu é pelo “bem morrer”. A superação cármica do destino traçado, mudando seu pós-vida.

Por fim o orfismo é muito comum confundido com o pitagorismo, isto se dá pelas semelhanças de alguns valores: Dualidade corpo-alma, crença na imortalidade da alma, punição do Hades(inferno, que os cristão absorveram) e prêmio do Paraíso(campos elísios, também na doutrina cristã). A necessidade de uma vida voltada a fazer o bem, para que o futuro seja agraciado com um lugar junto aos “eleitos”.  Mas a diferença se dará na forma de organização, as sociedade pitagoristas se reunião como seita, com conventos e ritos, muitos deles foram base para o cristianismo. A palavra do líder religioso era “lei”, não podia ser contestada.  Enquanto o orfismo era aberto, sem muita sofisticação, seus grêmios educacionais não impunham normas ou participação política, o que no pitagorismo era fundamental, a intervenção na polis.

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