O Deserto Ideológico

Sobraram as pegadas, quem vai segui-las?

Às vezes temos que tomar dura decisões, como a de ontem de parar de escrever regularmente a série  Crise 2.0, ver o artigo Crise 2.0: O Momento de Parar, mas, lembro da frase do final do Hamlet, antes do embate com Laerte: “Se é agora é porque não pode ser depois, se não é depois, é  porque tem agora, o importante é estarmos preparados“. Claro que nunca estamos verdadeiramente preparados para romper com qualquer coisa, mais ainda com aquelas que nos dão prazer, exceto quando passam a se tornar um fardo.

A decisão de escrever o Crise 2.0 foi um mero acaso, mas depois de vislumbrar ali uma chance de colaborar de forma positiva e propositiva ao debate, que, a meu ver, é o mais crucial entre todos, pois, conhecer os desígnios da Economia Política é uma ferramenta poderosa para lidar com qualquer outro debate. Dificilmente, sem o domínio mínimo dos elementos fundamentais sobre o funcionamento do sistema, se consegue intervir de forma coerente e decisiva na política, desde a mais ampla, o jogo do poder, até a mais colateral (não menos importante) como a questão dos costumes, da sexualidade, racismo ou xenofobia. Conhecer a dinâmica do sistema é condição primeira, para melhor se contrapor a ele.

De certa forma, assim espero, que o papel da série ( e deste blog) foi cumprido a contento. Sem dúvida, alimentava muito mais esperança no que poderia impulsionar, mas, mais uma vez recorro à literatura, ao meu inestimável Dante, para lembrar sua lição única: “Deixai toda esperança, vós que entrais”. Sabedor disto, deveria ter sido um pouco mais cauteloso, pois, o “Infernum” já está a muito organizado, não se pode vir de “fora”,  tentar mudar uma lógica, que mesmo não funcionando, parece ser a melhor encontrada, a que aliena de suavemente, quase indolor. É eficaz o sistema que a todos adorna e atende, desde que rebaixemos nossas expectativas reais de mudança, se acoplar a ele, ser por ele gentilmente dominado, mesmo com os escritos ou os discursos mais radicais.

O servilismo, ainda que aparentemente hostil, é o que há de mais sofisticado e devidamente permitido pelo sistema, a internet virou o campo mais fértil para esta onda, de aparente questionamento ao sistema, aliás, até incentivado por ele, já que de alguma forma a causa, a revolta,  alivias as tensões. Por mais chato que seja, vou continuar a repetir, como mantra: Sem Teoria, sem conhecimento e sem ação, nada, ou quase nada se muda. Parece coisa século XIX e, é. Contudo, é uma questão inescapável, por mais forte e próximo(será mesmo) o “contato” via rede, sem saber o que queremos, ou por que nos contrapomos ao que nos cerca, é tudo em vão.

Nada se fechou ou se abriu, foi apenas um espasmo, no fundo é este o sentimento, não de superioridade, ao contrário, é de frustração de não ter sido capaz de despertar mais debate, mais conhecimento, mais teoria, mais ação. O deserto ideológico, já dura uma geração inteira, sem que apareça novos atores, que olhem o passado como fonte de saber, não com desprezo. A minha se conformou, se acoplou ao sistema, mas de certa forma lutou, deu o combate, mas foi incapaz de superar a queda do Muro de Berlim. Pensei que, com a queda do Muro de Wall Street, abriríamos um novo momento, por enquanto, nada. Ou talvez, enxergue muito pouco.

 

 

3 thoughts on “O Deserto Ideológico”

  1. Arnóbio, companheiro, sua solidez inspira a muitos, esteja certo disso. Mesmo que alguns não comentem, não debatam, todos estamos avançando com seu blog, acredite, por favor! O resto é o resto, não dê bola!

  2. Sem ideologia, sem uma teoria, sem filosofia, sem uma visão de mundo embasada, muito pouco ou nada podemos fazer por uma mudança, seja de sistema – econômico e político – ou de transformação social.

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