O Fenômeno (Bicho)Grillo e a Crise de Representação

 

 

Diógenes, o Cínico e sua Lanterna

A situação política da Itália, no atoleiro que se meteu, não é, com certeza, apenas dela, faz parte de um momento mais amplo que temos que pensar muito, refletir para tentar entender, quem sabe esboçar alguma saída. Durante quase dois anos acompanhei dia a dia o desenrolar da maior crise econômica mundial desde 1929, numa série que denominamos   Crise 2.0, foram cerca de 300 artigos dedicados ao tema.

Alguma experiência e acúmulo teórico, este exercício hercúleo nos deu, principalmente de detectar determinadas características comuns que acompanham a onda de quebras dos países, não apenas econômica, mas fundamentalmente social e política. As eleições realizadas neste dois anos, 12 na UE, NENHUMA teve o governo de plantão sua renovação, não importa a cor dele, esquerda ou direita, mas a simples percepção de que cumpria acordos com a Troika ( UE, BCE e FMI), funcionava como fator preponderante para sua queda. Os trabalhadores e o povo se rebela com a aparência do fenômeno, a parte mais visível.

Alguns casos, como da Espanha e Grécia, há vasta gama de artigos, que se pode consultar neste blog, de como as eleições transcorreram, quais as forças e ideias em disputas. Na Espanha, o movimento de indignados, teve peso significativo no resultado eleitoral quando o boicotou, sinalizando como iguais, o PP de Rajoy e dos grupos religiosos de extrema-direita e PSOE,de centro, que tão mal conduziu à crise que chegou forte ao país. As eleições tiveram um baixo comparecimento, o que muito favoreceu ao PP que fez o discurso de ser “contra tudo o que está aí”. Passados 15 meses, a Espanha está muito pior do que na época do PSOE, mas o PP está blindado na sua ampla maioria parlamentar. O movimento dos indignados não gestou nenhuma saída alternativa de governo ou poder.

No caso grego, a Syriza, conseguiu se colocar como alternativa de governo, disputou palmo a palmo  com a direita e a troika, chegou a vencer o primeiro escrutínio, perdendo no segundo. Os resultados foram extremamente positivos, com uma participação destacada no parlamento e nas ruas. A situação grega não se resolveu, nem se resolverá, mas é claro o recuo que a Troika fez na política de destruição total do país. Os planos de Austeridade levam o país ao caos, sem perspectiva, a economia está em frangalhos, mas a disposição de luta é enorme. O instrumento mais visível é a Syriza, que aglutinou os setores mais progressistas do país.

Tenho escrito sobre as eleições italianas, seus resultados que inviabilizam o funcionamento de um governo com a mínima estabilidade, nos dois últimos artigos trato da questão ( Itália, Nau à Deriva e A Itália Rumo ao Atoleiro). Mas, na Itália, a eleição contou com um novo fenômeno, a presença dos “indignados” que se agruparam em torno de Beppe Grillo, um famoso comediante que fez fama pela língua afiada contra os políticos e contra a política(Entrevista/ Reportagem ao Eunonews, dia 21/02/2013 , Beppe Grillo: O cômico mais popular da política italiana). A lista, do agrupamento anti-partido de (Bicho)Grillo, obteve mais votos de que qualquer partido estabelecido, à frente do PD(sobras do PCI) e PDL( partido de Berlusconi). A plataforma central é a negação da política e da representação, atraiu milhões de votos, elegeu uma incrível bancada: 58 senadores e 108 Deputados.

Uma enormidade sem dúvida, mas sem qualquer coerência ou plataforma de atuação, o que virará no Parlamento? (Bicho)Grillo já deixou claro que não apoiará nem Bersani (Centro-Esquerda) nem Berlusconi(Extrema-Direita), como se houvesse sinal de igualdade entre eles. Daqui, bem de longe, não vejo, nenhum sinal de revolucionário num movimento que não se define politicamente, apenas nega e renega. É um voto de protesto com graves consequências, mas principalmente um aviso: 25% dos italianos não toleram mais a política tradicional, nem qualquer forma de representação conhecida.

Este é o centro da questão: Que tipo de representação política se impõe hoje? Que tipo de Democracia é viável? O campo pode se tornar fértil e, é, para o bonapartismo. Nada presta, nada resolve, melhor negar a todos. O enorme desemprego na Europa, principalmente entre os jovens com índices alarmantes, como os destes três países( 63% na Grécia, 53% na Espanha e acima de 40% na Itália), justificam a frustração com a política e com a representação parlamentar, a própria democracia fica em xeque. O momento é muito delicado, particularmente, não me empolga os movimentos de negação como M15 ou M5S( do (bicho)Grillo) pois não trazem ao debate uma saída, aliás apontam para mais desapontamento. Agora com esta imensa representação parlamentar, o que farão os partidários de (bicho)Grillo? o M15 recusou a se formalizar, disputar eleições, até onde irão?

O que o capital apresenta como saída, em relação ao Estado é o que tento formular, neste tempo todo, é o Estado Gotham City. No último artigo para série Crise 2.0, aponto até onde consegui investigar, lá escrevi e indiquei os artigos balizadores sobre o que avancei:Algumas linhas de pesquisas me levaram  algumas conclusões gerais sobre o que estar porvir, o tipo de Estado e de Economia, que vai surgir desta Crise, a maior e mais profunda desde de 1929, que, por conclusão minha, seria a terceira do Capital ( 1873-1891, 1929-1929 e 2005- ????). Estas linhas de pesquisas e fecho teórico são melhores alinhavadas em alguns textos, que considero centrais nesta produção, seguem abaixo:

 Estado

  1. Crise 2.0: O Novo Estado
  2. Crise 2.0: Novo Estado e o Capital
  3. Crise 2.0: Novo Estado e os Indignados
  4. Crise 2.0: Novo Estado e os BRICS

Economia e Suas Perspectivas

  1. Crise 2.0: Alerta Vermelho da OCDE
  2. Crise 2.0: A Obsessão Pela Austeridade
  3. Crise 2.0: Por Um Mundo Sem Austeridade
  4. Crise 2.0: Cenário da Economia Mundial de 2013 e 2014
  5. Crise 2.0: Cenário Global – Que Mundo Este?
  6. Crise 2.0: Cenário Global – É Este O Novo Mundo?

(Crise 2.0: O Momento de Parar , 07/01/2013)

 

À luz deste trabalho, continuo buscando as respostas e as alternativas, mas por enquanto, descarto estas de indignação seletiva, que não levam a lugar algum.

9 thoughts on “O Fenômeno (Bicho)Grillo e a Crise de Representação”

  1. Usando o “efeito Orloff ” como exemplo. a Itália amanhã pode ser a Espanha de hoje, fica a pergunta: Até quando as economias da França e da Alemanha vão resistir persistindo na mesma fórmula?

    1. Alexandre,

      No meu texto não considero voto no (Bicho)Grillo como de Direita, vejo como um “voto nulo” com “cara” e com muitas consequências funestas, por exemplo, 54 senadores e 108 deputados num parlamento polarizado, atuando sem plataforma ao sabor das loucuras midiáticas de Grillo? A coisa não se sustenta,

      Arnobio

  2. Me lembrei agora de uma eleição para o DAFA – nosso diretório na Arquitetura, quando houve uma divisão entre esquerda antiga e centro-direita, e surgiu uma terceira via – a do desbunde. Era chamada de Chapa Sã. Ganhou o diretório por grande maioria dos que estavam cansados dos discursos e práticas das outras. E não fez absolutamente nada de novo. Aliás não fez nem o obvio do dia a dia….a história se repete em maior ou menor escala sempre. Abraços

  3. Caro Arnóbio, vim a conhecer o teu blog a partir do Alexandre Ceará, e repasso o comentário que encaminhei para ele. As mesmas perguntas que fiz para ele, faria também a você. Um abraço, Guaracy.

    ei Ceará, valeu a dica. gostei do artigo e acho que entendi a posição que ele adota – e posso imaginar porque você se alinha com ele. mas queria mais dados a respeito de quem está junto (ou escondido atrás) de Grillo. e tenho algumas reticências. creio que você subscreve as teses de uma crise da representação e do risco bonapartista que embasam todo o argumento do Arnóbio, estou certo? outra coisa: você concordaria também que este tipo de argumentação assume como premissa que a única forma de aprender com a história é assumir que ela tem certa regularidade?

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