Sede Vacante – Bastidores de Guerra

 

Sodano, Ratzinger e Bertone, núcleo duro se quebrou ©OSSERVATORE ROMANO / REUTERS

 

 

Em plena segunda-feira de Carnaval, dia 11 de fevereiro, o mundo foi surpreendido com a primeira renúncia papal em 600 anos, algo realmente incomum, que gerou debates em todos os lugares sobre o que tinha levado o Cardeal Ratzinger ao ato extremo. Aqui, neste espaço, escrevemos alguns artigos sobre o tema: A Renúncia do Papa Bento XVIAs Cinzas da Quarta e a Sucessão do Papa e Algumas das Razões da Renúncia do Papa. Ontem se concretizou a renúncia, com a saída de cena do agora “Papa Emérito” Bento XVI.

Os contornos da saída estão agora associados ao relatório explosivo da comissão nomeada por Ratzinger para investigar o chamado “VatiLeaks”, um conjunto de documentos vazados pelo mordomo papal, Paolo Gabriele, que continha, fundamentalmente, a correspondência pessoal. Os documentos contam os bastidores de intriga, corrupção e traições na alta cúpula da Igreja Católica. O relatório, pelo que se soube, foi além dos vazamentos, segundo o jornal La Republica, que descobriu uma rede informal de prostituição gay dentro dos muros do Vaticano.

 

Associado ainda à crise dos escândalos de pedofilia, que tinham sido abafados no papado de João Paulo II, tudo caiu no colo de Bento XVI, e sem punições claras, o que aumenta a desmoralização da Igreja. O próprio Conclave que se inicia será marcado pela presença de Cardeais envolvidos diretamente no escândalo e outros que o acobertaram. Como o do cardeal de Los Angeles, Roger Mahony, destituído de suas funções no mês passado por ter protegido padres acusados de abusos sexuais. Ou o ex-arcebispo da Filadélfia Justin Francis Rigali, o cardeal belga Godfried Danneels e o cardeal irlandês Sean Brady, que també estão na lista de participantes.

 

Mas o que poderia ser pior de que ter Tarciso Bertone como Camerlengo, o homem que comanda a igreja, na Sede Vancante? Pelo que se leu, o Cardeal era o número 2 de Bento XVI e seu algoz, tramando e manipulando os passos da igreja, inclusive com a produção de falsos dossiês. Ainda mais complicado é se saber que o Conclave será dirigido pelo ultrarreacionário  Angelo Sodano, um dos principais assessores de João Paulo II, decano dos cardeais, que desdenhava publicamente dos escândalos na igreja. O jornalista John L. Allen Jr. publica no site National CatholicReporter, em 06-05-2011, um perfil devastador de Sodano, leiamos:

“Se Bento morresse hoje, seria Sodano, 83 anos, que presidiria as reuniões diárias da Congregação Geral dos cardeais, que moldam as discussões que levam à eleição do próximo papa. Também seria Sodano que presidiria a missa fúnebre do papa falecido e que celebraria a Missa Pro eligendo Romano Pontifice , a “Missa para a eleição do Romano Pontífice”, que é o último ato público antes do conclave.

Sodano, em outras palavras, seria o rosto da Igreja Católica durante o interregno papal – um momento em que os olhos do mundo inteiro estão diretamente sobre Roma.  Qual é o problema com isso? Em poucas palavras, Sodano tem um histórico problemático tanto em palavras quanto em atos em torno da crise dos abusos sexuais. Sem dúvida, ele não gerou a reação pública que, por exemplo, o cardeal Bernard Law enfrentou em Boston. No entanto, se Sodano estiver na frente e no centro durante o interregno, a sua história poderia facilmente se transformar em uma causa célebre.

De certa forma, é claro, é injusto reduzir o legado Sodano inteiramente ao seu perfil na crise. Ele teve uma carreira diplomática longa, embora polêmica (o seu papel diante do regime do regime Pinochet no Chile como núncio entre 1978 a 1988 ainda está em discussão) e serviu a João Paulo II durante 15 anos em um dos postos mais complexos do Vaticano”. ( Ver Matéria “O que fazer com o Cardeal Angelo Soldano”  – Site Instuto Humanistas Unisinos  07/05/2011) .

Estes dois homens, Bertone e Sodano, dirigirão os destinos da Igreja neste interregno, o que não garante uma escolha razoável com todo este histórico. Além disto,  dos 117 membros do Conclave aptos ao voto, 67 cardeais, quase os 2/3 necessários para eleição do Papa, foram nomeados por Bento XVI, à sua feição, ao seu perfil intransigente e conservador. A enrascada é imensa, só mesmo o “Espírito Santo”, que é o maior cabo eleitoral, para conseguir sair algo diferente desta onda reacionária dos últimos 35 anos, desde da posse de João Paulo II.

Há uma clara preocupação com o futuro da Igreja, pelo seu peso político no mundo, pelo papel que exerce, ainda muito forte,  no ocidente. Os desafios de acompanhar a realidade do mundo, vai assombrar, ou não, o conclave. A depender de figuras bizantinas e arcaicas como Sodano, não existe futuro, é uma lástima, que só no fim do mandato, Bento XVI percebeu no que deu sua política de exclusão e ódio, que dominou com ferro e fogo, como na velha inquisição. Os grupos de extrema-direita disputam o espólio, agora em guerra quase-aberta, mas o silêncio é ensurdecedor. Agora as consequências podem ser funestas.

4 thoughts on “Sede Vacante – Bastidores de Guerra”

  1. Me parece que o Vaticano, mais que a Igreja Católica em si, perdeu bastante de sua influência político-ideológica real no mundo, especialmente na Europa, nos últimos anos e, sobretudo, nas últimas semanas com tudo o que tem vindo à tona. E não creio que seja recuperável a curto prazo. No meu caso particular, tanto faz, pq não tenho religião (e portanto, igreja alguma) desde os 14 anos de idade, enquanto estudava em colégio de freiras. E justamente por causa do colégio de freiras.

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