Ilíada – A Patroclia

Aquiles e Pátroclo - Vaso Grego.
Aquiles e Pátroclo – Vaso Grego.

 

“De Teucros nuvem basta as naus circunda;
Pouca ourela da praia aos Dânaos resta;
Ílio em peso concorre e afouta inunda.
Oh! Não vêem mais luzir meu capacete:
Se o rei me fora justo, em fuga tinham
O fosso de cadáveres enchido” ( Canto XVI )

 

Parece que não domino meu tempo, nem minhas vontades, ano passado, em setembro fiz publicar uma resenha do canto I da Ilíada (Ilíada, Livro I ), com a vã promessa de voltar, seguir passo a passo a publicação, quem sabe ir de um a um, com pequenas resenhas. Passados seis meses, me encontro no mesmo ponto, muitas coisas se sucederam, me penitencio com os meus amigos que aqui frequentam, nem sempre consigo voltar ao tema, tem que ter vontade férrea, o que tem me faltado, neste tempo.

Como a Ilíada pode ser lida de diversas formas ou passagens, sem prejuízo ao geral, de nada adianta ir, agora, ao Canto II ou III, preferi pular e ir ao centro da tragédia, ou seja a Ira de Aquiles. No canto I, vimos o herói ser humilhado pelo comandante-em-chefe da armada grega, Agamêmnon, que tomou-lhe Briseide, a filha de Crises, a quem Aquiles deseja como espólio da guerra. Com aquela humilhação, o herói Mirmidão, se retira da batalha, se recolhe às naus de seu Estado, proibindo que qualquer guerreiro Mirmidão volte ao combate.

A soberba de Agamêmnon custará muito caro ao gregos, depois de nove anos ali, junto aos muros de Tróia, seria apenas questão de tempo sua queda, mesmo bem guarnecida a defesa, o logo cerco acabaria derrotando os orgulhos troianos. A presença de Aquiles, no centro dos combates, era um temor aos adversários, sua fama de implacável e vitorioso, impunha maior prudência ao troianos, não ousando combate do lado de fora dos seus muros. Portanto, a vitória grega, parecia inexorável.

Com a retirada de cena de Aquiles, os troianos se enchem de coragem e passam a guerrear fora de seus muros, impondo um duro recuo aos gregos, empurrando-os para o mar, chegando, inclusive, a incendiar algumas naus. Parecia que a sorte da guerra tinha virado de lado. Em sua nau, Aquiles assistia incessível ao destino dos gregos, sem reparação de sua honra não voltaria ao embate. Ao seu lado, Pátroclo, seu conselheiro e amigo, de fraternal amor, se condói dos gregos e se propõe usar as armas de Aquiles, como num embuste, fazer os troianos recuarem.

“Da nau fervia o prélio, e ao divo Aquiles
Vem Pátroclo a verter cálido choro,
Como de celsa rocha em fio brota
Fundo olho d’água. Comovido o encontra
O amigo velocípede: “Pátroclo,
Pranteias molemente? És qual menina
Que, da mãe apressada após, retêm-na
Pelo vestido, e em lágrimas olhando,
Insta-lhe até que em braços a receba.
Aos Mirmidões, a mim, que novas trazes?
Veio de Ftia um núncio? Vivem, consta,
Menetes e Peleu, cujo trespasso
Tinha de entristecer-nos. Ou lamentas
Os que ante as cavas naus ingratos morrem?
Não me ocultes, amigo, as mágoas tuas.”
Gemente assim Pátroclo: “Não te agastes,
Aqueu sem par; dor grave oprime os nossos:
Os mais valentes já feridos jazem,
De lança o Atrida e Ulisses, e frechados
Na coxa Eurípilo e no pé Diomedes.
Médicas mãos os curam cuidadosas;
Mas não se dobra teu rancor, Pelides.
Nunca ira tal me cegue, herói funesto!”

Chorando, Pátroclo, pede a autorização de Aquiles para executar seu plano. Aquiles, que nada nega ao amigo, cede-lhe as armas, mas é explícito no seu uso: não ultrapasse os muros de Tróia, apenas os faça recuarem, se tentar ir em frente sua morte será certa. Atento aos conselhos, Pátroclo, vai em socorro ao gregos.

 

Este ciclo de quatro cantos, Livro XVI ao XIX, mostra o destino de Pátroclo, conhecido como Patroclia, alguns atribuem apenas ao canto XVI, mas olhando o desfecho geral, incluí os outros três cantos, para uma ideia mais completa, em particular do sentimento de amor fraternal, honra e poesia. A força do poema de Homero, se revela particularmente forte, nestes episódios, para mim, só perde em dramaticidade para os cantos finais, da ida de Príamo resgatar o corpo de Heitor.

Aqui, os quatro cantos na doce poesia da tradução de Manoel Odorico Mendes:  Ilíada- A Patroclia

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