Crise Dois Ponto Zero – O Lado "B" da UE

 

Fome na Grécia


“Deixai, ô vós que entrais, toda a esperança” (canto III, Infernum – Dante)

 

A Europa, que acabava de se unificar, e vivia período de crescimento e de grande otimismo, fruto do modelo de créditos sem limites, os bancos alemães e franceses entupiram a periferia de Capital, numa ciranda mágica de opulência sem fim. Países como Espanha, Portugal e Grécia foram artificialmente “enriquecidos”, o leste já não existia para assustá-los, o modelo não era distributivo, sim de empréstimo sem lastro na economia real. A Alemanha é o carro chefe do modelo, com sua grande produtividade e produção tecnológica, além dos maiores bancos a financiar o seu comércio externo, fez com que a Europa inteira se tornasse dependente completa de seus produtos e serviços.

 Em menos de 10 anos, o superávit comercial alemão ultrapassou 1 trilhão de Euros, porém com a queda dos EUA, dois anos depois(2007) os mesmos sintomas da superprodução abalou a Zona do Euro. Com um agravante ainda maior, do que nos EUA, não há centralidade política ou fiscal, apenas um amplo acordo de moeda única e “livre comércio” que deve ser lido como: da Alemanha para os demais.

 O ex-presidente do Banco Central Suíço, Jean Pierre Roth, disse: “A Europa está entrando em uma nova fase de incertezas que pode durar uma década” (Estadão, 30/10/2011). No mesmo jornal uma longa entrevista do ex-Economista-Chefe do FMI, entre 2001 e 2003, Kenenth Rogoff, deu uma visão sombria sobre a Europa: “É muito provável que um ou até mais países deixem a Zona do Euro”. Ele confirma, de que só restou aos governos europeus pedir que China e demais membros dos BRICS que os salvem.

A Revista alemã Der Spiegel, foi mais fundo na análise e disse que os políticos europeus manipulam os seus cidadãos, não expondo claramente o tamanho da Crise, e nos bastidores só enxerga duas opções para Zona do Euro:A)  Governo central forte, algo como Estados Unidos da Europa, um tiro no escuro, pois nenhum político sabe o real significado disto, fora a falta de um Bonaparte que os lidere; B) Reduzir a Zona do Euro apenas àqueles países que realmente têm economia e padrão de consumo comum, excluindo os que não se adéquam além de erigir novas barreiras a eles;

A Europa entrou no seu sexto ano de crise, com um novo choque, denominado por Austeridade, ou o aprofundamento da solução “neoliberal”, porém já dando sinais evidentes de fracasso cabal deste tipo de saída. Entretanto, nos parece crucial, do ponto de vista do Capital, que as antigas glórias do Estado de Bem Estar Social sejam quebradas, a situação parece em muito com o que a América Latina viveu nos anos 80/90, também similar a do leste europeu. O Capital preciso de “sangue novo”, das antigas estatais, dos cortes sociais, da concentração bancária e fiscal.

A “nova” etapa, decidida em outubro de 2011, uma união fiscal, combinada com a punição aos que não cumprirem as metas, uma imposição da Alemanha, que inclusive não as cumpre, mas tem o Poder de impor aos demais uma disciplina rígida, que em nada salvará o Euro. Passados 18 meses da decisão, Merkel, em plena campanha eleitoral, se deu conta de que já não é possível seguir no mesmo rumo, a crise piorou generalizadamente, praticamente sugou a Espanha, depois de já terem perdido, Portugal, Irlanda e Grécia. A realidade é que a Austeridade se mostrou ineficaz, principalmente num ambiente de retrocesso econômico.

A Itália e seu Atoleiro Eterno.

 

Arte na Crise

A Crise Econômica que atingiu a Itália, só não é maior do que a Crise Política, os aspectos peculiares do seu desenvolvimento econômico e em particular a crise de representação política, os dois aspectos se retroalimentam incessantemente pelo menos desde 1992, com a operação mãos limpas:

  1. A operação mãos limpas foi um amplo processo político e judicial de limpeza das instituições republicanas;
  2. Os partidos tradicionais Democracia Cristã, Socialista e o Comunista sofreram duro golpe de credibilidade com a demonstração das suas relações incestuosas com a máfia;
  3. O resultado foi uma ampla reorganização no espectro político partidário italiano, mas que foi incapaz de evitar o pior: o ressurgimento burlesco do neofascismo;
  4.  Reagrupados em torno de figuras exóticas, em particular o magnata corrupto Berlusconi, rapidamente chegam ao poder, galvanizando a descrença generalizada nos políticos tradicionais;
  5. A chegada da Zona Euro inicialmente amenizou a situação interna de perda de competitividade e importância da economia italiana;
  6. A necessidade de canalizar recursos e reestruturar as economias que aderiam ao Euro, em certa medida beneficiou a Itália a não se tornou o foco principal de problemas;
  7. Mas a cambaleante economia local com altos índices de desemprego ou sub-emprego, larga precarização do mercado de trabalho jamais escondeu uma economia em crise acentuada;
  8. A combinação de governos bufos e economia baseada em grande endividamento público foram minando a Itália;

 Uma economia em constate queda e um país sem governo.

A dívida pública é hoje de 1,80 trilhões de Euro, mais de 120% do PIB, quando estourou a crise da dívida italiana, coincidiu com pior momento político, pois internamente o Governo farsesco de Berlusconi estava em péssima situação, seus problemas judiciais se acentuaram com a perda da ação do grupo Fininvest para Benedetti ex-controlador da Mondadori, que o premiê usurpou o controle em 1991. Além desta ação o premiê ainda enfrentava outras ações por corrupção, fraude e por fim, de incitação de menor à prostituição.

Com a crise, Bruxelas impôs a demissão de Berlusconi, fazendo assumir Mario Monti, sem mandato ou eleição, que fazia parte do acordo para que a UE ajudasse a Itália sair do atoleiro, desde que as reformas econômicas, leia-se, Austeridade, os planos da Troika que assombram vários países mais pobres como Portugal, Grécia, Irlanda, sem que as economias, efetivamente, saíssem do buraco. No caso italiano, não era uma tarefa simples, trata-se da terceira maior economia da Zona do Euro, um país com longa tradição de lutas e um estado de bem estar social e de direito consolidado. Quebrar uma estrutura desta, sem respaldo popular, não iria longe, em janeiro de 2013, Monti renunciou, por não avançar seu plano.

As eleições gerais colocaram a Itália no olho do furacão. Com toda a confiança do “mercado”, amplo apoio da Troika ( BCE, UE e FMI), o governo de Mario Monti, foi um fracasso, nenhuma reforma foi seguida, o déficit público não baixou e os números da economia só pioraram, fazendo com que a desconfiança fosse generalizada. Em recente pesquisa a desconfiança no Governo era de 82% e no Parlamento, 89%, um desastre completo. O que não é por acaso, que um comediante e anti-político, Beppe Grillo, que se fez candidato à Primeiro-Ministro, tem 16% das intenções, em terceiro lugar, superando inclusive o candidato da Troika, Mario Monti, com 13%.

Os candidatos dos partidos tradicionais, que se rivalizam desde a “operação mãos limpas”, o Partido Democrático (Centro-Esquerda, que junta ex-PCI com Socialistas e intelectuais), liderado por Pier Luigi Bersani, teve 31% votos, contra o bufão neofascista, Silvio Berlusconi, com seus 30,5%. A coalizão de Centro-Esquerda teve que buscar apoio para formar um governo e uma maioria clara no Parlamento, mesmo com o “bônus” eleitoral de quem lidera, havia uma fragilidade na formação de um novo Governo. Esta crise de representação arrasta a Itália para mais problemas na Economia.

O que se mostra com clareza é que à direita ou à esquerda, ou via comediante, a Itália rechaçou de forma inequívoca a solução de Austeridade e todas as políticas da Troika. O Candidato da troika foi atropelado pela sociedade, Mario Monti, ficou em quarto lugar, não teve nem 15% de apoio. O recado é muito duro para Merkel e para os burocratas de Bruxelas, não adianta tentar impor seus planos, que a Itália irá barrar. Porém, a questão que permanecerá viva é: Que tipo de acordo se fará com a Troika para obter tempo e dinheiro para arrumar a casa?

O Impasse Político

 

Mas, o impasse gerado pelas urnas, degrada ainda mais a cambaleante economia do país, a relação dívida vs PIB de 126%, só é menor do que a da Grécia, que antes da quebra era de 170%. O Desemprego em elevação e explosivo entre os jovens, não teve nenhuma política no governo Monti. Para completar o quadro o PIB recuou 2,2% em 2012, com projeção de mais queda em 2013 e 2014. Nada indica que o novo primeiro-ministro terá qualquer espaço de manobra, se persistir na política da troika, ao contrário, tende a ser mais desastroso, como demonstra a Espanha que legitimou um novo governo, Rajoy, que segue a receita da Austeridade e o país desabou.

O Presidente da França fez um pronunciamento muito duro acerca da questão da Itália, alertando que a política de Austeridade foi repudiada pelo povo, que não há mais como insistir neste caminho. Indicou ainda que o caminho da França, de buscar políticas de crescimento é o único possível, que a UE não pode voltar às costas para o que se passa na Europa. Hollande, não poupou as críticas, se mostrou muito preocupado com o impasse estabelecido e pediu que a UE mude as regras do jogo, senão ela mesmo perde o sentido de existir.

Do lado de Berlim, como era de se esperar, a preocupação é com os “mercados” que podem ser contaminados com as incertezas vindas da Itália, a terceira maior economia da Zona do Euro.  Segundo o El País, o ministro alemão das Finanças, Wolfgang Schäuble, comparou a Itália de hoje com a Grécia e alertou que o cenário político italiano “aumenta o risco de instabilidade do mercado.” ”A Itália é um caso grave, contagiosa, infecciosa para a Europa”,disse ele. ”A crise não está fechado”, previu Schäuble, e alerta para o perigo de cair na tentação de uma mudança.

Mesmo no caos, o Ministro, aproveitou para ameaçar a Itália, mas não apenas ela, todos da Zona do Euro, para que não se afastem da política de Austeridade, exatamente o contrário do que diz Paris, que se necessita começar um “novo ciclo econômico, uma nova política”. O debate que se segue, ainda segundo o jornal espanhol, é que já não há mais concesso em relação a Austeridade:  “O ajuste é necessário e essencial, mas vendo os números mais recentes da recessão é evidente que falta simetria: alguns países, como a Alemanha, poderia fazer mais do que eles fazem”, dizem fontes europeiasr. Se no final deste ano, ou seja, após as eleições alemãs , a política europeia não tiver resultado, será a hora de fazer uma curva, dizem as mesmas fontes.

A Itália continua sem governo, parece incrível, tem quase 4 meses que o país vive no limbo, mesmo depois de uma confusa e tumultuada eleição, em que a esquerda “ganhou” com pequena minoria, o Presidente Giorgio Napolitano, confiou ao PD, de Pier Luigi Bersani, a formação de um novo governo. Por mais de um mês e muitas tratativas, no último dia 28 de março, o Presidente foi informado do fracasso, não havendo a possibilidade de um acordo entre os partidos, o PD, desistiu de governar. Em vários posts naquela época alertava para o caos que se

As Alternativas são: A) Um Governo do presidente; B) Novas Eleições. Para um país que não se tem maioria alguma, nos parece claro, que o caminho será convocar novas eleições, o que prolongar ainda mais a angústia da Itália, mergulhada numa crise econômica sem fim, somada à crise de governo, ou melhor, de representação. Segundo o Site EuroNews, “Depois de um governo tecnocrata, a Itália está agora dependente de uma comissão de sábios para tentar solucionar as divisões entre os partidos nacionais. Uma “batata quente” nas mãos do presidente do país que se arrisca a aumentar a desilusão dos italianos com a classe política, expressa já nas urnas em fevereiro”.

A descrença da população foi demonstrada nos resultados gerais, os partidos mais tradicionais, a centro-esquerda, representada pelo PD, teve pouco mais de 30 % dos votos, praticamente empatada com a Direita do morto-vivo Berluscone. Mas a “novidade” foi o “Voto Nulo” com rosto, representado pelo comediante Beppe (Bicho)Grillo, que teve quase 25% dos votos, elegendo uma infinidade de deputados e senadores, em sua primeira eleição, algo como se Tiririca criasse um Partido e concorresse à Presidência, e logo na primeira eleição arrebanhasse mais votos que qualquer outro partido. “É o caos habitual, as decisões são totalmente inadequadas e sem qualquer respeito pela constituição, soluções que estão totalmente desligadas da realidade. Basicamente penso que isto vai terminar mal para todos nós”, afirma um habitante de Roma. Outra habitante mostra-se mais otimista, “espero que tudo se resolva e que alguém assuma a responsabilidade. para ser honesta, esperava que o PD, o PDL e o movimento de Beppe Grillo mostrassem finalmente alguma responsabilidade, pois não estamos longe de bater no fundo”.  (EuroNews, 01.04.2013)

Como, ainda, bem observa o EuroNews  que “o arrastar do impasse pós-eleitoral coincide com a recessão mais longa a atingir o país nos últimos 20 anos. Vários analistas temem que o chamado “governo do presidente” seja apenas uma forma de adiar o inevitável, a convocação de novas eleições em junho.  O futuro de Itália está, agora, nas mãos de um grupo de homens que o presidente Giorgio Napolitano escolheu para tirar o país do impasse político. As dez figuras selecionadas criteriosamente pelo chefe de Estado, divididas em duas “comissões de sábios”, iniciam, esta terça-feira, uma série de reuniões.

Ou seja, o velho conselho dos sábios, uma instituição grega e romana, voltou à cena, numa tentativa desesperada de Giorgio Napolitano, para formar um novo governo, com base nos nomeados e suas ideia, mas não parece simples, pois há uma vasta contestação, a começar por (bicho) Grillo, que quer uma nova eleição, pois sabe que pode vencer com uma maioria mais clara, pelo menos era este o sentimento em fevereiro. Conforme o Site EuroNews “O primeiro painel inclui acadêmicos e representantes de partidos políticos, deixando de fora o Movimento Cinco Estrelas, de Beppe Grillo, o que este já veio vivamente contestar. O segundo grupo integra o presidente do Instituto Nacional de Estatística, o responsável pela Autoridade da Concorrência, o presidente do Tribunal Constitucional, um diretor do Banco de Itália e o ministro dos Assuntos Europeus. Note-se que os homens que têm a missão de refletir a vontade de Itália e resgatá-la do bloqueio político, após o falhanço de Pier Luigi Bersani em formar governo, são precisamente isso, homens. Não há uma única mulher em nenhuma das duas comissões, o que é fortemente criticado por vários setores da sociedade.  No seu blog, Beppe Grillo, a figura incontornável que recusa colaborar com qualquer dos grandes partidos do sistema italiano, acusando-os de corruptos, escreveu que o país não precisa de “falsos negociadores” e que a democracia não necessita de “auxiliares”.

A postura de Giorgio Napolitano é tentar evitar novas eleições, o medo de que (Bicho) Grillo atropele de vez os demais partidos, que possa assumir um novo tipo de governo, ainda mais caótico, assombra as velhas raposas. O risco é grande, se tal comissão fracassar, dará mais voz ao palhaço, por outro lado, a postura de não negociar, pode afugentar novos apoios. É uma jogada que precisaremos esperar mais um mês, para ver o resultado prático, é  o tempo possível, para que surja um novo governo, ou que se convoque as novas eleições gerais, que seriam em Junho.

 

A Espanha, a queda do ex-tigre europeu.

 

 

 

 A grave crise econômica já tinha abalado a Espanha no final de 2010, com uma combinação de desemprego massivo e crescimento negativo, praticamente destruindo o governo de Zapatero (PSOE), para completar o quadro uma onda de indignados ocupou por meses, em 2011, as principais praças do país, principalmente a Plaza Del Sol em Madri, que concentrou os debates e expôs a inviabilidade do país, outrora visto como um “tigre” europeu.

No final do ano, a derrota dos “socialistas” espanhóis, se tornou um massacre. De socialista, já havia nada, pois, na verdade, desde Felipe Gonzalez levara o partido ao centro, e foi derrotado em 1996, pois não havia grandes diferenças com o PP de Aznar, além do cansaço de 14 anos de governo. É bom lembrar que durante o governo Gonzalez todas as medidas neoliberais foram tomadas. Em 2004, após o ataque a Madrid, feito pela Al Qaeda em represália ao Governo Aznar por participar das forças de apoio a Bush, o PP tentou incriminar o ETA e perdeu a eleição que parecia ganha.

O PSOE teve dois governos, mas este último, particularmente estava sendo desastroso, e a derrota foi mera consequência da política econômica atual, a vertiginosa queda da Espanha, o imenso desemprego, um país paralisado politicamente desde maio, não restava dúvida que o PSOE seria derrotado. Mas foi muito mais que isto, foi devastado. A vitória do PP, com Mariano Rajoy, foi estrondosa:

  1.  Na Câmara: 186 Deputados contra 110 do PSOE, redução de 59 cadeiras;
  2. No Senado: 136 Senadores contra 48 do PSOE;
  3. Nas províncias nos confrontos diretos entre PP x PSOE 39 x 2;
  4. A pior derrota do PSOE desde 1977;

A vitória da direita, o PP, partido identificado com o franquismo, teve um componente ainda pior, os setores de extrema-direita religiosa, assumiu a máquina do partido. Sem qualquer programa formal ou compromisso eleitoral, apenas negando o governo Zapatero, Mariano Rajoy, ficou com as mãos livres para impor um duro ajuste, seguindo as recomendações dos técnicos alemães que foram emprestados por Merkel, para elaborar o plano de governo, duas semanas depois de sua vitória, algo surreal.

Eleito numa campanha despolitizada, sem empolgar ninguém, com a maior abstenção da história, a retumbante vitória do PP, foi apenas construída em apontar o desastre da Economia, o desemprego galopante, nada de propostas ou compromissos, apenas negação. Eventualmente Rajoy prometeu não aumentar impostos, trabalhar para sair da crise. Porém de cara Rajoy nomeou Luis Guindos, Ex-Executivo do Lehman Brothers e FMI, para a pasta da Economia, era uma forma de agradar os sócios europeus.

Luis Guindos não se fez de rogado, apresentou um pacote de corte do orçamento de 15 Bilhões de Euros, além de reduzir o Déficit Público para 6%, corte de funcionários e logo a seguir o primeiro sinal de que campanha sem projeto claro, deixa às mãos livres, aumento de impostos, não é uma novidade a Itália com seu “tecnocrata” aumentou 50 impostos. Mas o ultraliberal Rajoy surpreendeu até suas hostes. O El País disse que a medida “foi tomada depois que Berlim passou dar as cartas na elaboração do plano”.(via Estadão, 03/01/2012)

2012 – O ano “Maia” da Espanha

 

 

A Economia foi entregue a dois ineptos, Luis Guindos e Cristobal Montoro. Que fecharam questão em aceitação incondicional da famigerada política econômica da Troika, que já havia levado ao caos a Irlanda, Portugal e Grécia. Mesmo assim, eles sincronizaram as declarações desastrosas, nas palavras de Guindos que “O compromisso da Espanha com a austeridade é total“, foi a frase que mais se escutou Guindos dizer em suas manifestações. Muito perto dela, “o compromisso da Espanha com a redução do desemprego é totalTudo para Guindos é Total, inclusive a reforma trabalhista e bancária, como diz uma fonte do jornal El País:“A ideia é fazer política de oferta: o mandato dos eleitores passa por aprovar uma reforma trabalhista dura ou muito dura, e quanto aos bancos, uma nova reforma financeira sem pôr dinheiro público”.

“A Espanha tem alguma opção que não seja a austeridade neste momento? Nenhuma. A Espanha tem de fazer seus deveres, lançar sinais claros ao mercado, cortar e reformar tudo o que for necessário, demonstrar que é um país sério para recuperar a credibilidade perdida. Só assim voltará a confiança”. O outro par, o Ministro da Fazenda repetia “Todas as comunidades autônomas deverão apresentar equilíbrio ou superávit orçamentário”, anunciou o ministro da Fazenda, Cristóbal Montoro.

 

A Economia continuou em queda, mesmo assim, Rajoy, seguiu meticulosamente as imposições da Troika, fez um corte radical no orçamento, de 27 bilhões de Euros, mas como o “Deus mercado” não lhe deu respostas, se propôse cortar mais 10 bilhões, em Saúde, Educação e serviços públicos. Parece um buraco sem fundo, quanto mais corta, mais piora a vida da população, mesmo assim, para o “mercado” ainda parece pouco. A radical flexibilização do mercado de trabalho, que facilita demissão, não reverteu o quadro de desemprego, pelo contrário, aumentou. A decadência espanhola, assim como a italiana, são de extrema preocupação na Zona do Euro, pois juntas são 33% do PIB da Zona do Euro, ambos países experimentam governos fracos, capturados pelo mercado, via Goldman Sachs e , no caso espanhol, dois ex-burocratas do Lehman Brothers e FMI, Finanças e Fazenda. Parece óbvio, que, salvo uma intervenção do BCE e UE, a situação tende à falência, se deixar a solução ao “Deus Mercado”.

A queima de forças produtivas continua intensa, o desemprego aumenta, mas também há queda nos preços de imóveis, no primeiro trimestre de 2012 teve queda de 7,2%, o que piora ainda mais o resultado dos bancos. No trimestre anterior houve queda de 6,8, este índice vem em queda desde 2008, o que está em linha com a queda geral da economia espanhola.  Na Espanha nada menos que 500 mil casas e apartamentos foram tomados pelos bancos, ou por inquilinos. Mas o pior ainda estava por vir. Justamente do setor bancário, que pôs à lona o governo Rajoy.

No início do mês de maio (2012), o presidente do Bankia, Rodrigo Rato, Ex-Chefe do FMI, da ala mais radical da direita espanhola, um dos líderes do PP, pediu que o banco fosse estatizado, pois estava insolvente. O Governo “liberal” do PP assume a conta, que a princípio seria simples, o governo perderia os 4,5 bilhões anteriores, e poria mais 4,8 bilhões, que foi feito por decreto presidencial. Em menos de uma semana um segundo decreto elevou a fatura aos 6,2 bilhões suplementares. E Guindos, Ministro da Fazenda, fechou a conta, dizendo que o valor final seria de 7,5 bilhões de Euros. A conta subiu de 9,3 aos 12 bilhões. Valor que superou o esforço de corte em Saúde e Educação que alcançaria os 10 bilhões de Euros.

No dia 18 de maio houve uma corrida desenfreada aos caixas do Bankia, suas ações caíram quase 30 %, no dia seguinta a facada final: A controladora do Bankia pediu 19 Bilhões de Euros, fora os 4,5 de 2010, totalizando os astronômicos 23,5 Bilhões de Euros. Apenas para comparação o Proer de FHC, atualizado, daria o mesmo, mas que foi para toda banca nacional, este valores se referem apenas a um único banco. A fatura da banca espanhola pode chegar aos 70 bilhões de Euros. No Parlamento uma luta surda entre o PP e oposição para que não haja uma CPI que investigue os crimes por trás da quebra, foi estampado no jornal El País.

Em apenas 12 meses de Julho/2011 à junhoo de 2012, em números líquidos consolidados ( Entrada x Saída), saiu do país 300 bilhões de Euros, mais de 20% do PIB da Espanha, ou em termos comparativos, quase duas Grécia inteira. O PIB espanhol de cerca de 1,4 Bilhões de Euros, estagnado desde 2010, com leve queda em 2011, mergulho com uma queda de 1,3% em 2012, que se não for revertida a tendência será substancialmente maior em 2013 e 2014.

O país mergulhou numa crise sem precedentes, com altíssima taxas de desemprego, de 1 em cada 4 trabalhadores, com a 23% da população vivendo no limite da pobreza, mais de 50% dos jovens sem emprego ou qualquer esperança. Mesmo assim, Rajoy, impôs dois cortes violentos no orçamento, atacando principalmente os gastos em Saúde, Educação e Seguridade. Mesmo com toda política de agradar à imposição da Troika, o “Deus Mercado” não lhe deu refresco, As várias crises se somaram na Espanha: Dívida Pública, Dívida das Províncias e por fim a quebra dos bancos. O Estado sem dinheiro para resgatá-los conseguiu um resgate parcial, desde que novos cortes fossem feitos, o que está sendo rigorosamente cumprido, com a aprovação do Tesouraço no dia 20 de julho. Mesmo assim todos os indicadores pioraram nada voltou a um termo aceitável.

 

Uma Monarquia Decadente

 

Um capítulo à parte, na grave crise que abate a Espanha, com milhões de desempregados, economia paralisada, baixa expectativa de saídas de curto prazo, é a situação da casa real  atingida em cheio por escândalos protagonizados por Inaki Urdangarin, marido da princesa Cristina, a caçula do Rei. Além do próprio rei, um falastrão autoritário e com passado, no mínimo, conivente com a Ditadura Espanhola.

O genro do rei, Urdangarin era presidente do Instituto Noos, sem fins lucrativos, mas que manipulava fundos públicos e privados e foi acusado formalmente pelo Juiz José Castro, instrutor do caso. Urdangarin e seu sócio Diego Torres prestaram depoimento e tiveram seus sigilos quebrados. A própria Princesa Cristina foi acusada de participar do esquema Noos. O Duque Inaki Urdangarin, era também do conselho de administração da Telefónica, uma das maiores empresas do País, com a função de “lobista”.

Esta crise expôs a casa real, o Rei autoritário deu ordem de silêncio, porém teve que abrir o bico e revelou toda dimensão da boa vida que a família goza, independente da situação de miséria que o país passa:

  1. Juan Carlos recebe 292 mil Euros anuais de salário, livres de qualquer imposto;
  2. O Rei tem 507 funcionários à sua disposição, sendo 80 apenas na casa real;
  3. Os seis membros da família contam com71(SETENTA e UM) motoristas;
  4. A despesa direta da família Real é de 8,4 Milhões de Euros, excluídos 140 milhões pagos pelo estado para manutenção da casa Real, 57 milhões de Euros para veículos, 6 milhões com salários de funcionários;
  5. Todas as despesas de viagens do Rei e família são pagos pela chancelaria. A Família Real é isenta de paga tarifas públicas: Água, Luz ou gás.

Meses depois, mais uma vez, o Rei Juan Carlos, constrangeu o país, quando caiu durante um safári, na África, pago por empresários amigos. O Rei, que era presidente da WWF, estava lá caçando elefantes, como se o país estivesse em perfeita ordem.

A Resistência Popular e Separatismo.

A sensação de que a Espanha está em processo de dissolução interna, movimentos de rupturas das comunidades autônomas, rumo à construção de estados independentes, parece ser a resposta encontrada para enfrentar os seguidos cortes e a perda de soberania total que se avizinha com o pedido de resgate e a entrega do comando à Troika. A vitória esmagadora da Extrema-Direita nas eleições gerais em dezembro, com a imposição de mais austeridade, só fez piorar o clima geral de miséria no país, de empobrecimento, os velhos sentimentos de autonomia total afloraram de forma irresistível,  o referendo na Catalunha, se concretizado pode sinalizar o fim da Espanha como conhecemos hoje.

Mas, a maior ruptura, é social. O desemprego massivo, combinado com baixa formação da mão de obra que é confirmada com a informação de que os jovens além de desempregados também estão fora das escolas e universidades, mesmo assim um dos centros dos cortes foi justamente na Educação, dando uma dimensão de que não existe nenhuma política que vise à competitividade, exceto com a oferta de baixíssimos salários, mas sem qualificação. A sociedade está em ebulição com muitas marchas, manifestações diante de um governo fracassado, sem perspectiva alguma, além de isolado politicamente e divorciado do povo.

Na Espanha nada menos que 500 mil casas e apartamentos foram tomados pelos bancos, ou por inquilinos, há apartamentos vivendo até 4 famílias, os idosos acabam punidos duplamente, pois voltam a ter preocupação com filhos e netos desempregados, além de ter que usar suas pequenas economias e aposentadorias para sustentá-los.

A depressão na velhice tem aumentado de forma alarmante na Espanha, nos últimos 5 anos, é mais um efeito da crise, pesando na vida dos idosos. Esta semana uma reportagem do El País mostrava o cotidiano de um casal de aposentado que tinham posto seu apartamento como garantia de um negócio de um filho, estavam com ordem de despejo, conseguiram um acordo de ficar no imóvel até a morte de ambos, pagando 300 Euros mensais, 1/3 da aposentadoria deles. Estavam revoltados, pois o governo salva os bancos, fecha os olhos para os pobres devedores.

O que sobrou ao governo neofascista de Rajoy foi à repressão aberta, enfrentando as manifestações com uma força desmedida e intimidatória, no último dia 25 de setembro, o 25S, teve centenas de milhares de pessoas nas ruas e as forças de segurança agiram com furor, prendendo e batendo, estes presos se tornaram incomunicáveis não se sabendo nem para onde havia sido levado. Agora há uma ameaça velada de que o governo central não aceitará o plebiscito da Catalunha, não permitindo que se faça pelo voto a independência, um risco de uma guerra civil paira no ar.

As desastradas falas de Rajoy, conclamando a “Maioria Silenciosa” recebeu uma deliciosa resposta de Pedro Almadóvar, o grande cineasta espanhol, num belo artigo publicado no El País “Realidad y Narración”, em que deixa bem claro, mesmo não estando presente ao 25S, ele não estava em silêncio.

A inabilidade generalizada de um governo neofascista, que não discute com um país empobrecido e cheio de tensões regionais é a marca de Rajoy, seu ministro da Educação fez um pacote que reduz, por exemplo, o ensino de catalão, parece até provocação, mas é mais além é o modus operandi da direita grosseira, afrontar, tensionar ao extremo, fazer conflito onde qualquer coisa pode ser motivo para mais discórdia. A Vice-Presidente, Soraya Santamaría, ontem declarava que poderia usar força para impedir qualquer separação, nem mesmo consulta popular, com as seguintes palavras “Consulta não é legal, e a lei prevê mecanismos de muitos para parar qualquer ilegalidade”.

A situação da Espanha é crítica, mas sempre pode piorar, este parece ser o caminho escolhido por Rajoy e sua trupe neofascista. No front externo se submete à Troika, mas não pede o Resgate Total, num perigoso jogo de frágil equilíbrio. Já no Front interno, reprime os movimentos sociais de forma violenta, aprofunda os cortes provocando imensa desagregação social, para completar é extremamente inabilidoso no trato com as regiões autônomas, impondo restrições e uma nova “Espanha” a elas.

A tragédia Grega

 

Luta e Repressão na Grécia

Acompanhamos neste último ano o desenrolar dos acontecimentos da Crise Mundial, em particular na Europa, e nesta com especial carinho, o destino grego. As tragédias se sucederam nestes últimos dois anos ao país, uma queda vertiginosa de sua Economia, que nunca fora realmente forte, mas com a adesão ao Euro, parecia uma oportunidade de mudar o destino de um dos países mais pobres da Europa. Todos os esforços do povo grego para aderir ao Euro, foram jogados fora por uma elite corrupta e entreguista. Os bilhões de Euros que aportaram no país, boa parte foi desviado para uso privado e mesquinho.

Enquanto a farra do dinheiro fácil circulava na Zona do Euro, parecia que tudo ia bem, mas a Grécia já acumulava grandes déficits fiscais, alguns culpavam pela mal sucedida Olimpíadas, em que gastaram quase 15% do PIB do país,  em obras que nada mudou a economia ou a dinâmica de desenvolvimento. O custo altíssimo, a imensa corrupção levou rapidamente ao vermelho todas as finanças. A combinação de corrupção e ineficiência estatal, incapaz de cobrar impostos dos mais ricos, apenas o setor de construção naval, quase a metade da riqueza do país, é isento de impostos com norma constitucional que os protege.

Rapidamente, após o estouro da crise em 2008, na Zona do Euro, Grécia faliu, a exemplo de Irlanda e Portugal, os três países mais pobres do acordo. A situação grega foi a pior de todas, até agora, em apenas 2 anos o PIB do país recuou 20%, a sua dívida pública quase que dobrou, atingindo mais de 160% do PIB. O desemprego saltou de 12 aos 28,%, entre os jovens de aproximadamente 60%. No ano de 2011, nos últimos 8 meses 11% dos médicos saíram da Grécia. Em pouco mais de 1 ano se formou uma massa de sem teto em Atenas de mais de 50 mil pessoas. A fome e miséria virou rotina. Um empobrecimento ainda maior retrocedeu o país ao pré-Euro.

Obrigada a pedir o resgate à Troika, esta foi impiedosa, em Setembro de 2011, a Alemanha, via Troika(FMI, BCE e UE), impôs ao povo grego um governo tecnocrata, liderado por PapaDEMos, por coincidência um dos homens que tinha feito o último swap de contas gregas junto ao Goldman Sachs, seus ex-patrões, que deu um prejuízo de mais de 300 milhões de Euros. A intervenção e monitoramento do dia a dia da vida da Grécia apenas pioraram as condições da Economia. 6 meses depois do Governo tecnocrata, as eleições aprofundaram a crise, com nenhum grupo conseguindo formar um governo.

Foi preciso novas eleições com vitória da Direita pró-acordo, apesar do empenho de Angela Merkel, ameaçando diretamente se os gregos votassem em Alexis Tsipras, da Syriza, coalizão de Esquerda, obteve um resultado estupendo, dando-lhe a chance de ficar com a segunda bancada no parlamento, ganhando mais forças diante de pacote tão desumano imposto aos gregos pela Troika, como bem observou “Vamos fazer uma oposição em benefício do povo grego. Em nenhuma hipótese vamos apoiar as medidas de austeridade. Elas não podem ir além”.

Na Grécia há uma cláusula eleitoral que o partido que ganha a maioria dos votos, nomeia 50 deputados a mais, uma coisa esdruxula, que elevou a participação da Direita de 79 cadeira ao 129, enquanto a Syriza ficou com 71 cadeiras, os “socialistas” caíram de mais de 100 cadeiras para 33.  A diferença é que agora os termos do acordo com a Troika não serão assinados por todos os parlamentares, como fizeram em outubro, por exigência da Alemanha, ou todos partidos assinavam o acordo ou não daria a ajuda, uma humilhação jamais vista, nem em rendição de guerra. Um parlamento que não aceita divergência.

O Estadão diz em longa matéria em que não demonstra tanto otimismo com a “vitória de Pirro”:  ”O resultado oficial, quando confirmado, dará direito a Samaras de costurar a formação de um governo de coalizão, que deve ser integrado por Nova Democracia, Pasok, Esquerda Democrática e, possivelmente, Gregos Independentes. Os dois primeiros partidos são considerados “pró-austeridade”, por seu compromisso com os termos do programa de socorro de € 130 bilhões concedido pela União Europeia, pelo Banco Central Europeu (BCE) e pelo Fundo Monetário Internacional (FMI).

Os imensos sacrifícios impostos, não serão cumprido, os acordos precisariam de 50 anos de muito esforço e miséria para ser cumprido. Até o FMI acha que tais metas não são exequíveis, segundo o Jornal Estado de São Paulos ” fontes do Wall Street Journal disseram que o FMI está pressionando os governos dos países da União Europeia a tomarem medidas para aliviar as exigências feitas à Grécia em troca de ajuda financeira. Segundo essas fontes, o FMI está enfrentando descontentamento entre seus países membros por causa das altas quantias que a instituição emprestou a países da zona do euro. As pressões do FMI, que têm sido evidentes nas reuniões entre seus representantes e funcionários da zona do euro, são uma reação às evidências crescentes de que a recessão profunda enfrentada pela Grécia tirou o programa de ajuda ao país do caminho estabelecido no começo deste ano. Os funcionários do FMI argumentam que a dívida da Grécia precisa ser reduzida para níveis sustentáveis antes de o Fundo liberar mais bilhões de euros para evitar que o país fique sem recursos. Segundo as fontes, a maneira mais eficaz de fazer isso seria os credores multilaterais da Grécia concordarem em perdoar parte da dívida. Mas essa proposta enfrentaria oposição firme de alguns governos de países da zona do euro, entre eles a Alemanha, que já emprestaram 127 bilhões de euros para a Grécia e estão intransigentes na posição de que os gregos não devem esperar receber mais concessões”.

Mas os outros membros da Troika( além do FMI, UE e BCE) não parecem dispostos a qualquer recuo, aliás exigem mais sacrifícios,  o pacote de exigências aos gregos exigia um corte imediato de 11,5 bilhões de Euros de corte no orçamento, o equivalente a 15% do total, apenas até setembro de 2012,uma tarefa gigantescas, impossível de ser cumprida. Uma missão da Troika esteve em Atenas (lembram quando vinham ao Brasil?) para fiscalizar o cumprimento das metas. Segundo a Agência Dow Jones, “O ministro de Finanças da Grécia, Yannis Stournaras, afirmou hoje que o país pode colocar milhares de servidores públicos em uma reserva especial de trabalho com salários reduzidos, para ajudar o governo a atingir a meta de cortar mais 4 bilhões de euros nos gastos orçamentários”.

Foi a resposta que os gregos encontraram para Troika devido estarem distantes da meta, vão puni mais ainda o funcionalismo público, pois  “Segundo Stournaras, o governo grego ainda precisa finalizar uma quantia significativa de cortes que fazem parte do pacote de austeridade de 11,5 bilhões de euros nos próximos dois anos, exigido pela troica de credores internacionais […] ”Os números não são fáceis de encontrar; os 11,5 bilhões de euros são um número significativo e nós ainda não o alcançamos. Falta cerca de 3,5 bilhões a 4 bilhões de euros”, comentou o ministro após se encontrar com o presidente grego, Karolos Papoulias, para informá-lo sobre os últimos desdobramentos econômicos e a recente reunião com a troica. O plano de austeridade precisa ser aprovado para que a Grécia obtenha a próxima parcela do segundo pacote internacional de resgate. No acordo de resgate, a Grécia se comprometeu a demitir quase 15 mil servidores públicos até o fim deste ano, ou encontrar outra forma de reduzir o funcionalismo. Entretanto, os esforços anteriores para criar uma reserva especial de trabalho, com cerca de 30 mil empregados, ficaram bem aquém da meta. No fim, apenas mil servidores foram colocados nessa reserva, enquanto outros 9 mil tiveram as aposentadorias antecipadas. Stournaras disse que não haverá demissões compulsórias de servidores públicos, mas afirmou que a ideia da reserva especial de trabalho ainda está sendo estudada. “Nós ainda estamos analisando esse assunto. As negociações estão em andamento e vão continuar até o fim de agosto(2012)”, comentou.

Mas não é simples a aplicação de tais cortes, pois a frágil aliança de governo, enfrenta crise interna com o tema demissão ou reserva especial, o Esquerda Democrática, liderado por Fotis Kouvelis. “Eu sou categoricamente contra isso, como fui desde o primeiro momento em que esse plano foi introduzido pelo governo anterior. Não é possível nós aumentarmos ainda mais o desemprego, que já é grande”, comentou. A troica deve voltar a Atenas no começo de setembro para concluir sua análise da economia grega e avaliar se o programa de reformas do país está “nos trilhos”. “Nós precisamos continuar vivos até que a Europa encontre uma solução completa para o problema da zona do euro. Assim, nós precisamos prosseguir com essas medidas essenciais para a salvação da Grécia”, afirmou o ministro Stournaras.

O Eurogrupo, que reúne os ministros das finanças da Zona do Euro, sempre trabalha com uma Grécia fora do Euro, as últimas reuniões, em especial na última semana de agosto de 2012, as simulações de impactos na Zona do Euro com esta saída da Grécia foram analisadas, concluindo-se que pouco mudará o panorama geral. O centro, da preocupação do Eurogrupo são Espanha e por tabela Itália, a situação grega passou a ser questão menor, no fundo acham que o que tinham que fazer já foi feito, agora “lavam as mãos”.

Xenofobia explodiu na Grécia

 

 A eleição de deputados pela extrema-direita grega, representada pelo partido  Aurora Dourada, foi um indicativo de um sentimento neofascista crescente entre os gregos. A revolta se amplia contra os estrangeiros que vivem no país, calcula-se em 500 mil, quase 5% da população, a maioria vinda da África ou leste europeu, que têm a Grécia como porta de entrada. As milícias incentivadas pelo Nova Aurora atua livremente, espancando e intimidando os “sem papeis”, viraram braço auxiliar da repressão estatal.

Para piorar a situação, segundo o site EuroNews, o Governo usa a repressão aos imigrantes como arma política, oferecendo à Alemanha, em especial, a garantia de que estes estrangeiros não mais passaram por seu território, e numa demonstração de força lançou uma ofensiva contra os “sem papeis”. De acordo com a matéria do site ““ A luta contra a entrada ilegal de asiáticos e africanos que fazem da Grécia a porta de entrada na Europa, está a ser utilizada como arma política pelo governo de Atenas. A polícia deteve cerca de seis mil pessoas por entrarem ilegalmente na Grécia, onde há 500 mil imigrantes ilegais e 800 mil legais. 1.600 ‘sem papéis’ serão deportados para os países de origem nas próximas semanas. 4.500 agentes participam na operação contra clandestinos, com a qual o governo conservador grego tenta recuperar, como prometeu, o controlo das ruas contra da imigração ilegal. O ministro NIKOS DENDIAS pediu calma: “- Peço à população que apoie esta operação para que não se voltem a produzir, em Atenas e progressivamente noutras regiões do país, cenas que são uma ofensa à nossa civilização.”

A recessão prolongada de mais de cinco anos seguidos, levou os gregos ao desespero, os empregos precários, antes feitos pelos imigrantes ilegais, amplamente tolerados, agora é disputado pelos gregos, que querem expulsar os imigrantes, pois sem estes empregos acusam-nos pelo aumento da criminalidade, na reportagem do EuroNews, diz que “as associações ligadas à esquerda consideram que o governo agita esse a fantasma da concorrência dos estrangeiros no mercado de trabalho, Tassos Anastasiades, da associação KEERFA:“Estão a tentar os propósitos racistas para desviar a atenção da população do que realmente está a ocorrer com as finanças, no quotidiano, e põe-se a culpa nos imigrantes de todas as coisas que estão mal na Grécia”.

A situação é insustentável, a relação é clara, o desencadear da Xenofobia está intimamente ligada à eleição da extrema-direita, “desde as eleições de junho, o partido de extrema direita ‘Aurora Dourado’ tem representação parlamentar pela primeira vez na história. Os ataques contra os imigrantes multiplicaram-se de forma alarmante. Diversas organizações constataram o aumento da violência racista no país. Cerca de 130 mil imigrantes ilegais entram, anualmente, na Grécia, a0 maioria pela fronteira com a Turquia, pelo Rio Evrosa. Durante a operação xenius Zeus, o governo enviou para a zona 2.500 agentes suplementares para proteger a linha de demarcação da fronteira.

Esta queda sem fim da Grécia, que sobrou apenas, do velho Estado, o aparelho coercitivo de repressão e uma burocracia falida,  o país sem rumo corre a reprimir os estrangeiros que lhes “roubam” até os piores empregos, Este parece o caminho natural que seguirá a Espanha, mais ainda sendo dirigida pelo Primeiro Ministro identificado com o neofascismo religioso, assim como o próprio Rei.

Austeridade que mata

 

 Países inteiros, como a Grécia, foram devorados pela crise, os seguidos planos de Austeridades só fez piorar a economia, os números dizem muitos mais, segundo o Estadão de ontem “a economia da Grécia contraiu-se em um ritmo mais acelerado do que o estimado anteriormente, confirmando que o país permanece em recessão, em meio à queda dos gastos do governo e das exportações. Segundo dados divulgados pela agência de estatísticas Elstat, o Produto Interno Bruto (PIB) grego encolheu 6,3% no segundo trimestre deste ano, em relação ao mesmo intervalo ano passado. A estimativa inicial, divulgada no mês passado, era de queda de 6,2% no período. Ainda na mesma base de comparação, o PIB grego caiu 6,5% nos três primeiros meses de 2012 e teve contração de 7,3% entre abril e junho de 2011.

 

 A abertura dos números mostra que o consumo total caiu 7,2% no segundo trimestre deste ano, em relação ao mesmo período do ano passado, após recuar outros 7,1% nos três primeiros meses de 2012, na mesma base de comparação. Entre abril e junho deste ano, o consumo do governo caiu 3,7% e o consumo das famílias recuou 8,0%, também em base anual. Já as exportações recuaram 4,1% no trimestre passado ante um ano antes, enquanto as importações cederam 12,3%. Os dados ilustram a fraqueza do consumo interna e da externa por produtos gregos”.

Primeiro Ministro grego, eleito recentemente, pela coalizão de Direita, esteve em Berlim e pediu clemência a Chanceler Alemã, Angela Merkel, que “precisava de ar, para respirar”. A resposta foi dura por parte de Merkel “A Grécia tem que cumprir os acordos”. Ambos sabem que é impossível um país que os trabalhadores já perderam 35% dos salários, exigir mais sacrifícios. Agora a Troika propõe que a Grécia imponha 6 dias de trabalho, com o mesmo salário, como parte do ajuste de competitividade. É uma situação descabida, em junho o país igualou o índice de desemprego da Espanha, com 24,4%, agora exigem que trabalhem mais dias, ou seja, não se abriria novas vagas, por óbvio.

Nem esfriaram as urnas novas grandes manifestações, mais fortes desde as eleições de junho segundo a agência Dow Jones “milhares de manifestantes marcharam neste sábado nas ruas da cidade grega de Thessaloniki, no norte do país, marcando o primeiro protesto em massa contra as próximas medidas de austeridade do governo. De acordo com a polícia, mais de 15 mil protestantes participavam de cinco marchas diferentes convocadas por sindicatos e organizações de esquerda, enquanto mais de 3 mil policiais foram mobilizados em todo o centro da cidade para manter a ordem e fazer cumprir a lei”.

O aparato policial foi mobilizado, é a única coisa que o Estado mantém forte, mas não intimidou os manifestantes que mesmo “com a forte presença policial, os protestos foram pacíficos, com os manifestantes gritando slogans contra os cortes e carregando faixas que traziam escrito: “Pare com as políticas neoliberais.” . As marchas são o primeiro teste real do sentimento popular desde que o governo de coalizão formado por três partidos assumiu o poder depois das difíceis eleições de junho. As manifestações também surgem num momento em que representantes da troica – um grupo formado por União Europeia (UE), Fundo Monetário Internacional (FMI) e Banco Central Europeu (BCE) – chegam a Atenas para negociar mais cortes dolorosos. A troica se reúne neste final de semana na capital grega para avaliar o progresso das reformas feitas pela Grécia e determinar se o país se qualifica para receber a próxima parcela de ajuda multibilionária. As negociações acontecem após a pausa de verão e devem durar até o fim de setembro.

Diante das manifestações o primeiro-ministro da Grécia, Antonis Samaras, inaugurou a feira anual de comércio internacional na cidade de Thessaloniki, prometendo que não haverá mais medidas de austeridade no futuro. “Esses são os últimos cortes”.

A reação dos trabalhadores, apesar de grandes manifestações, não conseguem barrar tais planos, a Grécia fez semana passada a sua 39ª Greve Geral nos últimos 4 anos, os violentos embates, com mais de 100 mil pessoas em frente ao Parlamento, não evitou que a coalizão de centro-direita votasse os cortes de ajustes de 2013, mesmo assim parece que nada agrada aos credores, o país é refém completo. A posição da Troika ( FMI, BCE e Comissão da UE) é cínica, exigem mais cortes, mesmo sabendo que o país vive um caos completo.

Segundo o Estadão : “A questão é como produzir cerca de 30 bilhões de euros adicionais em ajuda, se os credores derem à Grécia mais dois anos para que o país cumpra as metas fiscais, e como reduzir a crescente dívida grega a um nível sustentável. Várias opções estão sendo negociadas, mas os países da zona do euro, o Banco Central Europeu (BCE) e o FMI ainda não chegaram a um acordo que seja aceitável por todas as partes”. E o pior, segundo a reportagem   ”O FMI tem insistido que só poderá continuar a financiar a Grécia se houver uma chance realista de receber o dinheiro de volta, e se recusa a aprovar a liberação da próxima parcela do programa de ajuda sem haver um plano de redução da dívida que tenha credibilidade. As projeções agora são de que a dívida da Grécia vai alcançar 190% do PIB em 2013. Anteriormente, o FMI havia proposto que os governos dos países da zona do euro perdoassem parte dos créditos que já deram á Grécia. Cerca de 70% da dívida grega estão em poder do setor público, depois de uma reestruturação da dívida grega com o setor privado, no começo deste ano. Os governos dos países da zona do euro, porém, responderam que essa opção está “fora da mesa”, por ser politicamente difícil de implementar. ”O FMI quer uma solução agora, mas a Alemanha e outros preferem que ela venha mais tarde”, disse um alto funcionário da União Europeia. Segundo ele, caso a decisão seja adiada, pode-se encontrar uma solução de curto prazo para manter a Grécia solvente. “Eles precisam de parte da ajuda, que podem encontrar de várias maneiras. Há muitas ideias circulando sobre isso. Desse ponto de vista, há alguma margem de manobra até o fim do ano”, disse a fonte”.

Pobre Grécia, pobre mundo!

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