Análise de Ilíada/Odisseia – Visão Psicológica (Nova Versão)

O Corpo de Heitor é carregado pelos troianos.
O Corpo de Heitor é carregado pelos troianos.

 

I – Introdução

No fim do ano passado consegui de um fôlego só consegui passar, para este Blog,  velhos escritos sobre Grécia Antiga que fui anotando em minha leituras, Fiz um resumo geral da Ilíada e Odisséia com pequenos comentários sobre cada uma delas, depois me propus a uma análise destas obras com suas implicações: Política, Psicológica e Educação.

Escrever sobre temas tão complexos não é simples e rápido, este texto procura responder as questões da Ilíada e Odisseia sob o aspecto psicológico, para isto, meu guia será o mestre Junito de Souza Brandão e sua monumental obra “Mitologia Grega Vol I,II e III”.

Antes, para um melhor entendimento do que passarei a tratar será importante, para quem não leu ainda, ler ou reler os posts neste blog:

  1.  Ilíada – Ficha de resumo(1996)
  2.  Odisséia – Resumo
  3. Análise de Ilíada/Odisséia – Visão Política(Nova Versão)

 

II – A questão do Mito

Alguns conceitos fundamentais se impõem para uma melhor compreensão da força da Mitologia Grega e suas mais profundas análises implicações no homem. Dentre estes, o próprio conceito de Mito, consciência coletiva, arquétipos etc. Seguirei o mesmo caminho do mestre Junito de Souza Brandão, que trabalha com metodologia de Jung e sua visão dos mitos gregos.

Já no prefácio ao livro Mitologia Grego o Dr Carlos Byington nos coloca as seguintes questões sobre o tema: “Através do conceito de arquétipo, C. G. Jung abriu para a Psicologia a possibilidade de perceber nos mitos diferentes caminhos simbólicos para a formação da Consciência Coletiva. Nesse sentido, todos os símbolos existentes numa cultura e atuantes nas suas instituições são marcos do grande caminho da humanidade das trevas para a luz, do inconsciente para o consciente. Estes símbolos são as crenças, os costumes, as leis, as obras de arte, o conhecimento científico, os esportes, as festas, todas as atividades, enfim, que formam a identidade cultural. Dentre estes símbolos, os mitos têm lugar de destaque devido à profundidade e abrangência com que funcionam no grande e difícil processo de formação da Consciência Coletiva.”

Acrescenta ainda: “Todavia, os arquétipos são ainda mais do que a matriz que forma os símbolos para estruturar a Consciência. Eles são também a fonte que os realimenta. Por isso, os mitos, além de gerarem padrões de comportamento humano, para vivermos criativamente, permanecem através da história como marcos referenciais através dos quais a Consciência pode voltar às suas raízes para se revigorar.”

E finaliza relacionado sobre a importância da mitologia grega para Cultura ocidental: “Existe ainda algo extraordinário no estudo da Mitologia Grega, para o que gostaria de motivar a atenção do leitor. Trata-se de compreender a razão pela qual a Cultura Ocidental se voltou tão intensamente para a Grécia durante o Renascimento, o que muitos têm compreendido como um retrocesso ao paganismo e um conseqüente desvirtuamento do Cristianismo. No entretanto, lado a lado com a intolerância da Inquisição e sua obra repressiva das variáveis míticas (heresias), percebemos, no Renascimento, a Consciência da fé cristã, não só com os símbolos da religião greco-romana e egípcia, como com toda a sorte de crenças, superstições e magia. Foi nesta convivência entre religião, alquimia, astrologia e superstição que nasceu o humanismo europeu, útero e berço da ciência moderna. Não vejo nisso um retrocesso do Cristianismo e sim um avanço. A árvore mítica Judaico-Cristã foi buscar em outras culturas o material imaginário necessário para implantar a transição patriarcal do Self Cultural e encontrou, na Mitologia Grega, uma fonte inesgotável de símbolos de convivência com as forças da natureza. O Ocidente reencontrou na Grécia não só uma cornucópia de mitos matriarcais, como também inúmeros padrões mitológicos de convivência destes símbolos matriarcais com os patriarcais. Estes ingredientes foram indispensáveis para os gênios do Renascimento constituírem a ciência moderna, a partir da busca da espiritualidade Judaico-Cristã, aplicada às forças da natureza.”

Mesmo na Grécia antiga o Mito passou por um intenso debate pela necessidade de “desmitizar” estes deuses pecadores, vingativos, incestuosos. As correntes filosóficas pré-socráticas usaram o Logos (razão) para “provar” que os deuses de Homero e Hesíodo não são realmente divindades, pois a idéia de Deus é algo mais sério, como na visão de Xenofanes de que Há um deus acima de todos os deuses e homens: nem sua forma nem seu pensamento se assemelham aos dos mortais”.

O Mito ainda passou por um processo de “Dicotomização” que não admitia variação do mito, ele era único e qualquer outra interpretação era livre conceito do poeta, não correspondendo a “verdade”, começando assim um processo de filtro em relação ao Mito.

Noutra ponta houve a necessidade de “politização” do Mito, obrigando que este tivesse como ponto de passagem por Atenas, que vivia a efervescência de ser a Cidade-Estado principal, os mitos acabavam tendo que prestar culto em Atenas, descaracterizando a verdadeira “desordem” natural da criação.

Esta depuração quer pelo racionalismo, ou por fonte única ou ainda política e por último pelo materialismo do Epicuro e Demócrito, quase levaram a Mitologia a extinguir-se como fonte original criativa e elevada da cultura helênica.

Porém dois movimentos surgidos na prórpia Grécia (Alegorismo e Evemerismo)  meio que “salvaram” o mito ou criaram uma capa de proteção para que chegasse até hoje e, em muito, fosse incorporado no Rito Cristão dominante ocidental. Junito nos apresenta os dois movimentos:

Alegorismo

“Já que os mitos não eram mais compreendidos literalmente, buscavam-se neles as (hypónoiai), isto é, as suposições, as significações ocultas, os subentendidos. Foi isto que, a partir do século I p.C, se denominou alegoria, que significa, etimologicamente, “dizer outra coisa”, ou seja, o desvio do sentido próprio para uma acepção translata, ou mais claramente: alegoria é “uma espécie de máscara aplicada pelo autor à idéia que se propõe explicar”. Teágenes de Régio, já no século VI a.C, tentara fazer uma exegese da poesia homérica com base na(hypónoia), mas somente no século IV a.C. é que a alegoria descobriu que os nomes dos deuses representavam sobretudo fenômenos naturais.

Assim é que o estóico Crisipo reduziu a mitologia a postulados físicos ou éticos. Homero e Hesíodo estão “salvos”; “salva” está a poesia e a arte, que poderão continuar a beber na fonte inesgotável do mito, embora alegorizado

Evemerismo

“O filósofo alexandrino Evêmero publicou uma obra, de que nos restam alguns fragmentos, intitulada (Hierà Anagraphé), História Sagrada, que, com o mesmo título, foi traduzida para o latim pelo poeta Quinto Ênio (239-169 a.C.). Trata-se de uma espécie de romance sob forma de viagem filosófica, no qual afirma Evêmero haver descoberto a origem dos deuses. Estes eram antigos reis e heróis divinizados e seus mitos não passavam de reminiscências, por vezes confusas, de suas façanhas na terra.

O Evemerismo, por conseguinte, nada mais é do que a tentativa de explicar o processo de apoteose de homens ilustres. Embora teoricamente antípoda do alegorismo, o Evemerismo muito contribuiu também para “salvar” a mitologia, injetando-lhe uma dose de caráter “histórico” e humano. Afinal, os deuses não passavam de transposições, através da apoteose e de reminiscência, um tanto desordenada, das gestas de reis e de heróis primitivos, personagens autenticamente histórica.”

 

III – Definição do que é Mito

Ensina-nos Junito de Souza Brandão sobre o que é o mito: “o mito é o relato de um acontecimento ocorrido no tempo primordial, mediante a intervenção de entes sobrenaturais. Em outros termos, mito, consoante Mircea Eliade, é o relato de uma história verdadeira, ocorrida nos tempos dos princípio, illo tempôre, quando, com a interferência de entes sobrenaturais, uma realidade passou a existir, seja uma realidade total, o cosmo, ou tão-somente um fragmento, um monte, uma pedra, uma ilha, uma espécie animal ou vegetal, um comportamento humano. Mito é, pois, a narrativa de uma criação: conta-nos de que modo algo, que não era, começou a ser.

De outro lado, o mito é sempre uma representação coletiva, transmitida através de várias gerações e que relata uma explicação do mundo. Mito é, por conseguinte, a parole, a palavra “revelada”, o dito.”

E por fim arremata dizendo que o “O mito expressa o mundo e a realidade humana, mas cuja essência é efetivamente uma representação coletiva, que chegou até nós através de várias gerações. E, na medida em que pretende explicar o mundo e o homem, isto é, a complexidade do real, o mito não pode ser lógico: ao revés, é ilógico e irracional. Abre-se como uma janela a todos os ventos; presta-se a todas as interpretações. Decifrar o mito é, pois, decifrar-se.”

IV – Homero e seus poemas: deuses, mitos.

Numa visão bastante simplificada teríamos a Ilíada como à ida ao oriente, movimento de invasão a Ásia pela Europa, enquanto que a Odisseia seria o retorno dos invasores com seus troféus de guerra. Grosso modo, teríamos, segundo Junito,o seguinte significado das obras (com a qual concordo):

 Odisséia

 “A Odisséia, com os dez anos de peregrinação de Odysseús, o nosso Ulisses, em seu regresso ao lar, em Ítaca, após a destruição de Tróia, é bem diferente, do ponto de vista “histórico”, da Ilíada

Ulisses teria sido o mascaramento da busca do estanho ao norte da Etrúria, com o descobrimento das rotas marítimas do Ocidente. Tratar-se-ia, desse modo, de uma genial ficção, embora assentada em esparsos fundamentos históricos, porque, no fundo, a Odisséia é o conto do nóstos, do retorno do esposo, da grande nostalgia de Ulisses. Este seria o ancestral dos velhos marinheiros, que haviam, heroicamente, explorado o mar desconhecido, cujas fábulas eram moeda corrente em todos os portos, do Oriente ao Ocidente: monstros, gigantes, ilhas flutuantes, ervas milagrosas, feiticeiras, ninfas, sereias e Ciclopes. . .”

 

Ilíada

“A Ilíada, ao revés, descreve um fato histórico, se bem que revestido de um engalanado maravilhoso poético. Na expressão, talvez um pouco “realista” de Page, o que o poema focaliza “são os próprios episódios do cerco de Ílion e ninguém pode lê-lo sem sentir que se trata, fundamentalmente, de um poema histórico. Os pormenores podem ser fictícios, mas a essência e as personagens, ao menos as principais, são reais. Os próprios gregos tinham isso como certo. Não punham em dúvida que houve uma Guerra de Tróia e existiram, na verdade, pessoas como Príamo e Heitor, Aquiles e Ájax, que, de um modo ou de outro, fizeram o que Homero lhes atribui. A civilização material e o pano-de-fundo político-social, se bem que não se assemelhem a coisa alguma conhecida ou lembrada nos períodos históricos, eram considerados pelos gregos como um painel real da Grécia da época micênica, aproximadamente 1.200 a.C, quando aconteceu o cerco de Tróia”

Ele ainda caracteriza a sociedade descrita nos dois livro  “Homero fundiu estes três momentos culturais, mas não existe na Ilíada e na Odisséia nem evocação escrupulosa do passado, nem descrição exata do presente, mas a visão de um mundo ideal, composto de um passado micênico da Europa e de um presente homérico e asiático, amalgamados numa harmonia, que é realidade sem ser realidade, quer dizer, poesia e nada mais. Com efeito, os dois poemas homéricos, recheados de elementos religiosos, não são um código de vida, nem um cânon de fé. Trata-se de um documento religioso incomparável, mas imperfeito, porque omite; e parcial, mercê da liberdade com que são tratados os deuses: Zeus, Hera, Apoio, Atená. .. não passam, muitas vezes, de vagas reminiscências daquilo que realmente foram…

Para elas celebra os jogos, onde o vigor se conjuga com a nobreza. O preito da força e da beleza física, símbolos do herói, contraiu, desde Homero, núpcias indissolúveis com as qualidades do espírito: o kalón, o belo, e o agathón, o bom, eis aí a síntese de uma visão humanística que remonta à Ilíada e à Odisséia. Pois bem, o mundo dos deuses é a projeção dessa sociedade heróica e aristocrática. À autoridade de Agamêmnon e, não raro, à sua prepotência, correspondem a soberania e o despotismo de Zeus, assim como às revoltas dos heróis contra as arbitrariedades do “senhor” e rei de Micenas corre paralelo a manifestação de independência dos imortais contra a tirania do “senhor” e rei do Olimpo”

Junito faz painel dos deuses homéricos:

Zeus Deus Pai

 

“Zeussempre se começa por ele, é o deus indo-europeu, olímpico, patriarcal por excelência. Age ou deveria agir como árbitro, sobretudo na Ilíada, mas sua atuação é um pêndulo: oscila entre o estatuído pela Moîra(Destino-grifo meu), com a qual, por vezes, parece confundir-se, e suas preferências pessoais. Os Aqueus destruirão Tróia, ele o sabe, mas retarda quanto pode a ruína da cidadela de Príamo, porque prometera a Tétis “a vitória” dos Troianos, até que se dessem cabais satisfações à timé ofendida de Aquiles. Para cumprir seu desígnio é capaz de tudo: da mentira às ameaças mais contundentes. Na prova de força que dá no canto VIII, 11-27, quando proíbe os deuses de ajudarem no combate a Gregos e Troianos, ameaça lançar os recalcitrantes nas trevas eternas do Tártaro e afirma categoricamente que seu poder e força não maiores que a soma da força e do poder de todos os imortais reunidos! E desafia-os para uma competição. . . Todos se calam, porque perderam a voz, tal a violência do discurso de Zeus. Somente Atená, a filha do coração, após concordar com o poderio paterno e prestar-lhe total submissão (excelente psicóloga!), ousa pedir que os Aqueus ao menos não pereçam em massa. E Zeus sorriu e disse-lhe que fosse em paz, sem temor: com “a filha querida” ele desejava ser indulgente!”

“A personalidade de Zeus parece desenvolver-se em dois planos: como “preposto” da Moîra, na Ilíada, age como déspota; como chefe incontestável da família olímpica, busca quanto possível a conciliação.”

 

Hera Esposa de Zeus

Hera é a esposa rabugenta de Zeus. A deusa que nunca sorriu! Penetrando nos desígnios do marido, vive a fazer-lhe exigências e irrita-se profundamente quando não atendida com presteza. Para ela os fins sempre justificam os meios. Para atingi-los usa de todos os estratagemas a seu alcance: alia-se a outros deuses, bajula, ameaça, mente. Chegou mesmo a arquitetar uma comédia de amor, para poder fugir à severa proibição do esposo e ajudar os Aqueus”.

“Atraiu femininamente Zeus para os píncaros tranqüilos do monte Ida e lá, num ato de amor mais violento e quente que as batalhas que se travavam nas planícies de Tróia, prostrou o poderoso pai dos deuses e dos homens num sono profundo! É verdade que não raro Zeus manifesta por ela um profundo desprezo e surgem então as ameaças e afirmativas de domínio masculino, o que mais acentua a fraqueza e a insegurança do grande deus olímpico, porque tais ameaças nunca se cumprem. Conhecedor profundo do rancor, da irritabilidade e da insolência da esposa, Zeus procura evitar, quanto possível, as cenas de insubordinação e a linguagem crua e desabrida da filha de Crono. Esquiva-se ou busca harmonizar as coisas, dando a falsa impressão de que o destino dos mortais depende mais do humor de Hera do que da onipotência do esposo. Em relação aos demais deuses e aos heróis, a deusa não tem meios-termos: ama ou odeia e na consecução destes dois sentimentos vai até o fim. Tem-se visto no comportamento de Hera, a deusa dos amores legítimos, sobretudo na influência exercida sobre Zeus, o reflexo da poderosa deusa da fecundidade (e ela realmente o foi em Creta), a cujo lado o esposo divino desempenharia um papel muito secundário: apenas o de deus masculino fecundador. A cena de amor no monte Ida simbolizaria tão-somente uma hierogamia, isto é, uma união, um casamento sagrado, visando à fertilidade.”

 

Palas Atená

“Atená é o outro lado de Hera no coração de Zeus. Nascida sem mãe, das meninges do deus, é, já se mostrou, a filha querida, cujos desejos e rogos, mais cedo ou mais tarde, são sempre atendidos e cujas rebeldias sempre entristecem, “pois estas lhe são tanto mais penosas quanto mais querida é a filha”. O canto VIII da Ilíada está aí para mostrar quanto Atená, a deusa da inteligência, é a preferida e a mimada pelo senhor do Olimpo.”

Apolo


“Apolo homérico é uma personagem divina em evolução. Ainda se está longe do deus da luz, do equilíbrio, do gnôthi s’autón, do conhece-te a ti mesmo, daquele que Platão denominou pátrios eksegetês, quer dizer, o exegeta nacional. O Apolo da Ilíada é um deus mais caseiro, um deus de santuário, uma divindade provinciana. Preso à sua cidade, comporta-se como um deus tipicamente asiático: é o deus de Tróia e lá permanece. Raramente lhe ultrapassa os limites e é, por isso mesmo, pouco freqüentador do Olimpo.”

 

Posídon

 

“Poseídon é um deus amadurecido pelas lutas que travou, e sempre as perdeu, com seus irmãos imortais e com o próprio Zeus. O deus do mar, na Ilíada, tem como característica fundamental a prudência. Sempre que discorda, comunica-se primeiro com o irmão todo-poderoso e acata-lhe de imediato a decisão. Quando Hera planejou uma conjuração contra o esposo e convidou o deus do mar, este se irrita e responde-lhe que “Zeus é cem vezes mais forte do que todos os imortais”. Mas, numa ausência prolongada do Olímpico, Posídon aproxima-se, observa e, vendo-se em segurança, admoesta e encoraja os Aqueus. Por fim, quando Hera adormece no Ida ao esposo, o deus entra diretamente na luta e se empenha tanto nos combates, que não percebe o despertar de Zeus. Foi necessário o envio de Íris para admoestá-lo. Posídon obedece in continenti e o Olímpico se felicita pela submissão do deus do tridente. Apesar de prudente e submisso a Zeus, é incrivelmente rancoroso com os mortais.”

 

Tétis


 “Tétis é uma poderosa deusa marinha. Sua residência é uma gruta submarina, mas com todas as prerrogativas devidas a uma imortal tão importante. Seu poder é tão grande junto a Zeus, que, para vingar a timé de Aquiles, os Aqueus serão derrotados até o canto XVII da Ilíada! Mãe acima de tudo, procurou evitar por todos os meios que o filho participasse da Guerra de Tróia, porque lhe conhecia o destino. Com a morte de Pátroclo, após tentar maternalmente consolar o inconsolável Aquiles, dirige-se à forja divina de Hefesto e de sua esposa Cáris. Com que dignidade e humildade, aos pés do deus, segurando-lhe os joelhos, pede, a quem tanto lhe deve, que fabrique novas armas para o Pelida (Il XVIII, 429-461). Talvez Tétis seja a mais humana das figuras divinas de Homero.”

 

Hefesto


 “Hefesto é o deus coxo. Por tentar socorrer sua mãe Hera, que brigava com Zeus, foi por este lançado do Olimpo no espaço vazio. O deus caiu na ilha de Lemnos e ficou aleijado. Foi Tétis quem o recolheu e levou para sua gruta submarina. Hefesto sofre as limitações de seu próprio físico e serve comumente de alvo de chacota para seus irmãos imortais. Já o vimos, em meio às gargalhadas de seus pares, claudicando atarefado pelos salões do Olimpo.”

 

Ares


 “Ares é o menos estimado dos deuses: pelos homens e pelos imortais. De deus da guerra, o amante de Afrodite torna-se nos poemas homéricos uma personagem de comédia. Falta-lhe ainda muito para ser o flagelo dos homens. Se na Odisséia fez o papel ridículo de sedutor punido, na Ilíada, após ser ferido por Diomedes, corre ao Olimpo, segundo se mostrou, para queixar-se a Zeus, de quem recebe ironias e insultos.”

 

Afrodite


“Afrodite é o amor. Apenas amor. Seu protegido é Paris. Para ele quer Helena sempre pronta e de braços abertos para recebê-lo, mesmo quando o poltrão, que não resistiu ao primeiro ataque de Menelau, no combate singular do canto III da Ilíada, é envolto numa nuvem e transportado para “o quarto perfumado” de Helena.”

V – Observações Finais

 

Algumas palavras finais sobre os livros. A intensa participação dos deuses nos eventos da Guerra de Tróia, suas múltiplas facetas, seus preferidos entre as cidades, entre os príncipes e entre os heróis, alguns deles “filhos” de suas relações com mortais, trazem um painel diferente do distanciamento que temos hoje de Deus e dos Homens.

Posteriormente a igreja católica usou deste artifício de aproximação do divino com o profano (homens) através das relações de “padroeiros”, vários deuses protetores foram substituídos por santidades, alguns inclusive usando as mesmas indumentárias, facilitando assim a “conquista” das comunidades pagãs.

A mitologia nos fascina, impressiona, em particular por esta codificação de valores e representação de algo que está em nós. A leitura dos grandes livros da Grécia Antiga nos torna melhor e mais humanos.

(Texto Publicado originalmente em 25 de Outubro de 2010)

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