Antígone – Liberdade ou Morte (Nova Versão)

Édipo em Colono (Oedipus and Antigone by Antoni Stanislaw Brodowski (1784-1832)
Édipo em Colono (Oedipus and Antigone by Antoni Stanislaw Brodowski (1784-1832)

“O tempo que terei para agradar aos mortos, é bem mais longo do que consagrado aos vivos…hei-de jazer eternamente!”


Antígone

 

Tema: Tragédia, Autoritarismo e Heroísmo.

 Resumo: Antígone guiou seu pai, o Rei Édipo, ao exílio e morte em Colono, pois ele tinha furado seus olhos quando descobriu sua tragédia. Ao voltar para Tebas, ela fica noiva de seu primo Hêmon, porém a cidade-estado está em guerra entre seus irmãos Polinice e Etéocles, que lutam pelo poder.

Passado Anterior

 

Jocasta ao saber que casara como próprio filho, Édipo, se suicida com os lençóis do leito pecaminoso. O Rei Édipo ao entrar nos aposentos e ver que a esposa/mãe se matara, pega um broche que prende a roupa dela, fura seus próprios olhos, achando assim que vai punir seus pecados.

Cego, Édipo vai para o Exílio em Colono, cidade próxima à Atenas, seus passos são guiados desde Tebas por sua filha Antígone, que acompanhará suas ultimas reflexões. Ela verá que a maldição que seu pai/irmão sofreu, não é tolerada por ninguém, nenhuma cidade, não será aceito em nenhum lugar sagrado. Cego e doente é condenado a viver nas proximidades de Atenas.

O Livro

 

Creonte, o irmão de Jocasta, assume o Trono de Tebas, enquanto os irmãos Polinice e Etéocles crescem para no futuro decidir quem será o rei. Já adultos, os irmão, decidem que se revezarão anualmente no trono, primeiro Etéocles depois seria a vez de Polinice.

Entretanto, Etéocles não cede à vez ao irmão, este busca exílio em Argos, sendo recebido por Adrasto, rei da cidade, que dará uma de suas filhas em casamento. Polinice, com o apoio das tropas do sogro, decide reivindicar o trono de Tebas. Cerca as sete portas da cidade, sem entrar em combate. Os irmãos fazem um acordo de um duelo singular entre si, o vencedor ficará com o trono. Porém, mais uma vez a maldição dos LabdacidaÉdipo Rei ou a maldição dos Labdacidas (Nova Versão) agirá sobre eles, ambos morrem.

Creonte mais uma vez assume o trono de Tebas e determina que apenas Etéocles receba as exéquias mortais, enquanto Polinice é condenado a ter seu corpo jogado na areia e será devorado pelas aves de rapina na praia (o maior castigo ao morto), sem nenhum culto ao herói que lhe é devido. Aquele que desobedecer a ordem real será morto.

Antígone, que voltara do exílio após a morte de Édipo, não aceita a decisão de Creonte, tenta convencer Ismênia, sua irmã, a ajudá-la a enterrar com dignidade o irmão. Esta com medo da punição de Creonte se recusa a ajudar. Antígone não se intimida e escondida durante a noite, faz as exéquias do irmão, enterrando-o com as honras necessárias.

Creonte ao saber que o corpo de Polinice  foi enterrado resolveu punir o culpado por desobedecer à ordem e será condenado à morte. Logo descobre que foi Antígone, sua sobrinha e futura nora, ela era noiva de Hêmon filho mais velho de Creonte. Como havia decretado, não podia voltar atrás, então manda que os guardas levem Antígone para morrer de fome e sede sob um conjunto de rochas fora da cidade.

A notícia do castigo a jovem princesa se espalha e uma revolta na cidade se estabelece. Creonte com receio da repercussão de seu ato manda chamar Tirésias, o adivinho, pra saber o que os deuses acham de sua decisão. Este, ao chegar, diz que o crime de Creonte será purgado com sangue de sua própria família se ele não reparar a tempo o erro cometido.

Creonte temeroso pela previsão de Tirésias manda buscar Antígone, porém, ao chegar à rocha os guardas a encontram morta. Junto a ela, seu noivo, Hêmon, também morto,  ambos se suicidaram por não puderem casar. Por fim Eurídice, esposa de Creonte, também se mata.

Comentário sobre o Livro

A maldição do Labdacida tem seu fechamento com as suas últimas vítimas: Antígone, Hêmon e Eurídice. A peça Antígone é uma das mais significativas das que chegaram até nossos dias, pois traz a síntese das tragédias abertas por Édipo Rei e sua antítese representada por Édipo em Colono.

Antígone virou o símbolo da luta contra o despotismo dos governos autoritário, que vai além da Grécia, na época dirigida pelos tiranos. Toda vez que há um governo déspota a peça se agiganta, se impõe nesta luta pela liberdade, ainda que a morte seja o castigo.

Há várias leituras possíveis, como tratamos na analise de Édipo Rei. Ficarei com um interessante comentário feito por Junito de Souza Brandão, que une analise psicológica e política, muito bem localizada, no tema central do livro: “Do ponto de vista simbólico, todavia, a cegueira que Édipo se infligiu possui um sentido mais profundo. As trevas externas geram a luz interna. A αναγνώριση (anagnórisis), “a ação de reconhecer” e de reconhecer-se começa efetivamente a existir quando se deixa de olhar de fora para dentro e se adquire a visão de dentro para fora. Mergulhado externamente nas trevas, o herói se encontrou. Se Édipo, porque sabia, conquistou o poder, a hipertrofia desse mesmo poder sufocou-lhe o saber. Sua cegueira estabeleceu em definitivo a ruptura entre o saber e o poder: cego, o herói agora sabe, mas não pode. Não mais, como deixa claro Foucault, estamos na época dos týrannoi, dos tiranos, mas na era de Péricles, no século da democracia, que não sabe, mas pode. Tanto que em Édipo Rei os únicos a saber, além dos deuses e os adivinhos, são os humildes, os pastores, que não podem, mas sabem. Por isso mesmo, em sua tragédia Antígona, que é um confronto entre a consciência individual e o despotismo sofistico, Sófocles mostrou com muita clareza que a característica básica de sua personagem central, Antígona, é o direito de opor uma verdade sem poder a um poder sem verdade.

 

Baixe o Livro: Antígone 

(Texto publicado originalmente em 15 de março de 2011)

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