Banquete do Amor – A Perda.

Harry(Morgan Freeman) e Chloe( Alexa Davalos), a Perda e o Amor.

 

Estes dias tratei de um tema extremamente complexo que é a questão do Perdão, o fiz tendo como referência o filme denso e duro, Na Natureza Selvagem – O Perdão. Hoje diminuirei a palavra, para tratar de Perda, tema muito mais complexo e árido. Mais uma vez o cinema será meu ponto de partida, ou melhor, foi através de um filme que o tema gritou no meu ouvido, uma noite inteira quase sem dormir com ele envolto nos meus pensamentos, as várias frases e ideias que deveria se concatenar, neste texto, sua relação com a obra ficcional.

Ontem vi “Banquete do Amor” (Feast of Love), dirigido por Robert Benton, magistralmente conduzido por Morgan Freman. Harry é um professor universitário compulsoriamente aposentado, que se torna um observador privilegiado de pequenas e marcantes tragédias, ele próprio sofrendo uma terrível perda, a morte de seu jovem filho médico, vítima de uma overdose de heroína. De uma cafeteria no seu bairro, Harry vai acompanhando os personagens e seus dramas, com eles interagindo e vivendo, se é possível viver, consumido por sua dor.

A Perda é o outro lado do Amor, é quase seu gêmeo, é nela que descemos ao terreno do Humano, sem embargo, a finitude do amor, da vida, da convivência é resultado ultimo de qualquer relação, mas raramente estamos prontos para aceitar e viver a dor que ela provoca. A contradição de quem ama é saber que um dia e uma vida não é o bastante para que se possa efetivamente compreender seu fim, seus limites naturais, ou sua transcendência para outros planos dos quais não temos pleno domínio.

O banquete do amor é o cardápio de possibilidades de amar e perder. Brandley, o ótimo Greg Kinnear, é dono da cafeteria e artista nas horas vagas, um cara sensível que ama e perde para outro amor, seguidamente duas mulheres. Mesmo com toda sensibilidade ele era incapaz de saber a cor dos olhos da mulher com quem viveu nos últimos seis anos, isto não é mero acaso. O centro é que ele queria apenas a fugaz felicidade do momento, o medo de ficar só, lhe fechava os olhos para detalhes que não são apenas detalhes, que acabam sendo fundamentais. (Graças ao #MaisMédicos dos EUA, ele vai conhecer uma médica húngara, risos).

Chloe(Alexa Davalos) e Oscar(Toby Hemingway), os destemidos jovens que se amam e viveram no limite, como se não houvesse o dia seguinte, em geral não há, mas que tiveram coragem de encarar o amor, sem o medo da Perda, porque amar também é não pensar e racionalizar nada, doenças ou dores, apenas viver o quanto se pode, o quanto se tem, abençoados pela vida. A graça de tudo está na coragem de enganar a própria morte, a vida chegará até ela, mas o que construiu naquele amor, ultrapassará qualquer fim.

As reflexões do professor Harry são as nossas dúvidas de cada dia, em particular diante de uma Perda, ou de uma tragédia que a vida nos impõe. As portas se fecham, mas pode ser que as janelas se abram, nossa existência se liberta quando pulamos as janelas, pois é a nossa saída, nosso outro viver, nosso novo amar.

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