A Viagem Zen

O Templo do Dragão em Paz (Ryoan-ji) em Kyoto, um portal para o universo.
O Templo do Dragão em Paz (Ryoan-ji) em Kyoto, um portal para o universo.

Estava aqui sem nada para escrever, dando como certo de que hoje passaria em branco, mas de repente li um pensamento de um amigo, um desejo dele, que na verdade é quase um poema que dizia mais ou menos assim, de que quando ele for “bem velhinho, lá pelos 90 anos, quer virar jardineiro e japonês, pois assim vai arar as pedras de um jardim japonês, depois sentar na varanda e ver o por do sol e a lua brilhar para ver as pedras crescerem”( do Blog Livro das Horas – ‘crescer pedras’ – Mauro Amarelo). É uma imagem linda demais, uma poesia de uma sensibilidade e um alcance incrível.

Costumo contar por aqui sobre o mais lindo templo que visitei no Japão, no longínquo 1996( nas minhas “Crônicas do Japão”), entre tantos e majestosos templos como, por exemplo, o Kinkakuji(Templo de Ouro) aquele causou o maior impacto em mim, foi o templo do Dragão em Paz ((Ryoan-Ji) assim descrevi que ele  é bem pequeno, mas de grande significado, pois é o mais famoso templo Zen do mundo. Era residência da Família Fujiwara, mas foi desapropriado após a Guerra Onin, o clã Hosokawa tomou a propriedade e mandou destruir a construção original, erguendo em seu lugar o famoso templo, que serviu de cemitério para os imperadores desta dinastia”.

“As sete tumbas dos imperadores Hosokawa: – Uda , Kazan , Ichijō , Go-Suzaku , Go-Reizei , Go-Sanjo e Horikawa foram lá enterrados como símbolo da humildade após a morte. A Tsukubai (agachar) local da bacia de água que cai e o visitante se curva para lavar as mãos e boca para se purificar, o modo como foi construído obriga o gesto de semi-ajoelhar. No topo está escrito: “o que se tem é tudo que se precisa”.  É o ensinamento básico e anti-materialista do budismo”.

“Mas, o que mais impressiona mesmo é o jardim das pedras, uma pequena arquibancada de três batentes ao longo do jardim é o local em que cada um deve se sentar e tentar ver todas as pedras de uma única vez. Só aquele que se concentra e atinge a iluminação consegue vê-las todas juntas. Esta contemplação, mais que um desafio, é a busca da reflexão, da necessidade de se abstrair do mundo material e se conectar com o etéreo. Olhamos e vemos rapidamente, ao mesmo instante, 14 pedras, mas a 15ª sempre nos escapa. Esta é a essência do lugar, a humildade de saber reconhecer nossos limites” (Crônicas do Japão XVII: Kyoto IV – O caminho da Iluminação).

O pensamento do meu amigo me levou imediatamente de volta a Kyoto, a cidade que mais me identifiquei, pois ali me senti num outro lugar, algo fora da terra, espiritual, longe. Um estranhamento, certa paz, contemplação, que nenhuma outra cidade, que visitei, me levou até hoje. Por mais que tente não consigo expressar com toda a força e magia, o que senti em Kyoto, foram dois dias de profunda elevação, que culminou naquele pequeno templo, o mais “simples” que tinha conhecido ali, na cidade dos 1000 templos. No Ryoan-Ji é impossível ficar indiferente, deve ser um daqueles lugares na terra que serve de portal para o universo.

A verdadeira viagem espiritual está conosco, alguns lugares, como naquele templo, é que a torna perfeita.

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