Mil e Uma Utilidades – A Democracia

Democracia - Até quando?
Democracia – Até quando?

Ontem li no Portal do Luis Nassif, o artigo Mal-estar com a democracia se espalha pelo mundo, escrito por Aldo Fornazieri, professor da Escola de Sociologia e Política, importante pensador de esquerda, que reproduz um dos maiores problemas do mundo, a crise da Democracia Burguesa Representativa, com bastante dados e informações relevantes. Entretanto fica no reino da constatação, como é um artigo, não sei se é apenas substrato de um estudo mais amplo, farei algumas ponderações e ressalvas.

Um problema central no artigo é que faltou a localização histórica do momento, ou seja, faltou a Crise 2.0, sem ela ficamos no reino da aparência e das constatações óbvias. Vejamos a definição geral de que “No trânsito do século XX para o século XXI, a democracia triunfou como forma universal de organização política dos governos. Havia uma expectativa, não só de sua expansão, mas também de que ela pudesse despertar o entusiasmo dos diversos povos.  Mas o que vem se observando é, senão uma desilusão, uma apatia. A democracia passa por dificuldades em quase todos os lugares”. Ora, a expectativa era do Kapital triunfante, não dos trabalhadores, a queda do muro de Berlim deu mãos livres ao avanço do Kapital, inclusive determinando a sua forma última de organização do Estado.

A questão que se segue à queda do Muro de Berlim é que a burguesia, sem o contraponto dos trabalhadores organizados, imporia sua agenda e seu ritmo, o que o fez por longos 20 anos. Mas a Crise 2.0, trouxe de volta ao mundo à realidade concreta da luta de classes. O maior reflexo desta mudança é que as velhas mazelas do Kapital são vistas a olhos nus, sem poder ser maquiada pela propaganda burguesa. A crise atingiu o centro, EUA e UE, os modelos de estabilidade e dinâmica do Kapital, obviamente os centros menores, que nem atingiram a maturidade da democracia , muito menos do as promessas do livre mercado, então a Democracia no centro e fora dele vai ser questionada.

O artigo aponta, corretamente, que “na Europa, a crise em curso, reduziu os níveis de bem estar e de direitos dos cidadãos, aumentou a pobreza fragmentando a coesão social. Alguns analistas sugerem que a democracia europeia sofreu uma espécie de sequestro: nos momentos agudas da crise, mas também em outros momentos, os governos vêm adotando decisões segundo o que ditam os mercados e as agências de classificação de risco. Os cidadãos europeus têm visto seus governantes cada vem menos como seus representantes, e cada vez mais como representantes do FMI, do Banco Central Europeu e do sistema financeiro global. As eleições europeias têm varrido os governantes de plantão. Uma das poucas exceções é a Alemanha, que garantiu nova vitória a Angela Merkel. Os novos governantes, liberais ou de centro-esquerda, rezam pelas mesmas cartilhas de seus antecessores derrotados”.  

Mas por que Merkel venceu? A Democracia na Alemanha está consolidada? O Kapital Financeiro não domina a Alemanha? Ou estamos apenas assistindo uma dinâmica diferente rumo à ruptura da democracia burguesa? Particularmente tenho trabalhado e escrito sobre estas mudanças do Kapital, entendo que o Estado de Bem-Estar Social é o maior impecilho à saída da Crise, sendo a Democracia a parte crucial do Estado que deve ser desmontada, a minha tese sobre o Estado Gotham City, já expressa no meu livro é o caminho, sob minha ótica, que o Kapital vai impor, hoje, Merkel e Obama, ambos reeleitos, são as imagens deste novo Estado, em que a Democracia pode se tornar irrelevante.

Fornazieri, no artigo, entra no jogo do moralismo padrão, culpando o cinismo dos políticos ou das políticas de Estado, no caso dos EUA, como sendo a causa do mal-estar da democracia, o que, a meu ver, é apenas a aparência, pois no fundo o caminho mesmo é a desmoralização, torna o parlamento, uma caricatura de representação, em nome de uma nova forma de Estado que surge sub-repticiamente na atual crise.  Inclusive, no campo dos trabalhadores e do povo, o surgimento de movimentos autônomos, anti-partidos e sindicatos, vem reforçar o mesmo fenômeno, o fim do Estado atual. Este “Novo”, em essência, defende a mesma agenda do Kapital.

Escrevi e polemizei longamente nestes últimos dois anos e meio, o meu livro, Crise Dois Ponto Zero – A Taxa de Lucro Reloaded,  é o ápice da análise da crise 2.0 e nele aponto à questão do novo Estado que o Kapital quer construir em alternativa ao atual Estado “Neoliberal de Bem-Estar Social”, não tem mais como conviver com este híbrido, passou da hora de romper com qualquer política social e humana. A continuidade da análise se deu via artigos no blog, especialmente depois das jornadas de junho de 2013, no Brasil, que parte da esquerda aderiu ao “Novo”, sem perceber o tamanho do buraco.

O artigo A Escatologia do “Novo”, remonto, do meu ponto de vista, a batalha ideológica em curso, sei que é longo, mas a leitura porá de pé a polêmica que vivemos. O que o Professor Aldo Fornazieri escreveu é de vital importância como constatação, mas não move um centímetro o rumo da nau à deriva, a Democracia. Sendo esta fundamental para a luta dos trabalhadores e oprimidos, para o Kapital é apenas um estorvo.

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