Os "Milagres" de Espanha e Alemanha e A reestruturação do Brasil.

 

A hora de repensar e reestruturar o Futebol Brasileiro
A hora de repensar e reestruturar o Futebol Brasileiro

As três últimas Copas do Mundo foram vencidas por seleções da Europa (Itália (vice, França), Espanha (vice, Holanda) agora Alemanha (vice, Argentina)), não sendo por um mero acaso, pois no século XXI a supremacia do futebol mundial se deslocou definitivamente para o velho mundo. A exceção foi Brasil (vice, Alemanha), campeão de 2002, naquela época mais da metade dos jogadores ainda atuavam no Brasil, parte de uma geração que ainda não era dominada pelos clubes europeus, a migração dos craques latinos, ainda se dava numa idade superior aos 21 anos.

Mas o maior fenômeno destes campeões, Itália, Espanha e Alemanha, é que todas estas seleções são resultadas de formações de dois clubes, o futebol destes países passou a ser baseados em clubes hegemônicos, que captam os craques de clubes menores e mantêm alguns grandes jogadores estrangeiros. Ao irem para a seleção nacional há uma facilidade de entrosamento, de consciência tática, pois há também um espelhamento da tática da seleção nos clubes que mais cedem jogadores.

A Seleção da Itália, campeã de 2006, teve na Juventus de Turim, Milan e Inter de Milão, a base dos craques, em particular Buffon, Canavaro (era do Parma, depois Inter e Juventus), Marcelo Lippi, o treinador campeão, veio da Juventus, havia uma identidade e uma consciência tática comum, com um detalhe sombrio, naqueles anos, Juve, Milan se envolveram num rumoroso escândalo de manipulação de resultados, com clubes rebaixados e outros punidos com perda de pontos, mesmo assim a base da Seleção, formada pelos times locais, conseguiu se superar e vencer.

O caso da Espanha, campeã de 2010, é ainda mais ilustrativo, nesta nova formatação do futebol. A Real Federação Espanhola com ajuda e facilidades estatais investiu no Real Madrid e no Barcelona, como nunca. Depois anos e anos de seleções principais fracassadas, houve um maior apoio às seleções de base e a manutenção de uma filosofia, em particular no Barcelona, o maior celeiro de craques. A Seleção Espanhola foi moldada pelo Barcelona com complemento no Real Madri, a forma de jogar, a estrutura de jogo toda ela veio de lá. As vitórias de duas Eurocopas(2008/2012) e um mundial(2010) não foram um acaso. A decadência recente com o envelhecimento da equipe, além da partida de jovens craques da base, para outros centros como Inglaterra e Alemanha, se refletiu na pífia campanha nesta Copa.

A Alemanha, por fim, também tem muito desta nova visão, a reestruturação do futebol, com subsídios do Estado para modernização dos clubes e um pacto entre a Federação com os times, para implantar um sistema que viabilizasse a Seleção e a formação de craques. Um trabalho de longo prazo, com muitas derrotas no caminho, não esqueçamos que a equipe de Joachim Löw, perdeu seguidamente duas Euros, a Copa de 2010, com Jürgen Klinsmann( Joachim Löw, era auxiliar), também perdeu o mundial de 2006, em casa.

A Bundesliga se fortaleceu, mais ainda o Bayern de Munique, o maior clube do país, cada vez maior e mais rico, manteve os melhores jogadores, além de contratar as principais revelações. A Seleção Alemã é o reflexo do Bayern, acrescido de poucos jogadores do Borussia Dortmund, ou seja, os jogadores se conhecem, jogam juntos a muito tempo, quando chegam à seleção não há diferença de concepção tática, de estrutura de time, o que facilita a fluência do jogo e o trabalho do treinador. A seleções de base, a exemplo da Espanha, também foram valorizadas e acompanhadas.

O que vejo é que o milagre, não é tão milagre assim, é um conceito repetido, principalmente da Espanha e Alemanha, investimento conjunto, Estado-Federação-Clubes, fortalecimento da formação de base e das seleções de base, acordo/pacto entre a federação e os clubes para que as equipes joguem em sistemas táticos espelhados na seleção ou vice-versa. Persistência com os mesmos técnicos, mesmo com fracassos em campanhas, houve paciência em continuar e apostar no futuro, tudo isto explica os seus feitos.

Apenas para lembrar, a Seleção Brasileira de 2002, era herdeira de craques de 1998, alguns até de 1994, mas também tinha no time vários jogadores que tinham jogado no Palmeiras-Parmalat ( Marcos, Cafu, Roque Jr, Roberto Carlos, Junior, Rivaldo, Luisão, Edilson) acrescido de craques especiais como Ronaldo Gaúcho e Ronaldo. Outra característica, até ali, eram raros os casos de jogadores que tinham ido jogar na Europa com menos de 21 anos, todo o ciclo deles tinha sido nos clubes nacionais e nas seleções de base do Brasil. É preciso repetir que, nas duas últimas Copas são raros os jogadores que jogam aqui, muitos nem nas seleções de base jogaram.

Os clubes nacionais perderam na Lei Pelé o passe dos jogadores, com pouquíssima idade suas carreiras estão nas mãos de empresários, que logo os revendem para Europa, muito sem nem completar o ciclo de formação num clube brasileiro. Os clubes são mal geridos, é fato, mas também não tem como manter uma formação cara de um atleta, pois na hora que estão aflorando, os empresários tomam conta deles, os clubes se tornam reféns, quebrando a cadeia de formação do jogador. Há uma perda radical de qualidade, um Neymar aqui e nada mais, a mudança também precisa ser radical, o momento exige esforço e desprendimento, não há fórmulas simples, mas há ótimos exemplos, como os da Espanha e Alemanha, que podem ser seguidos, aliás, eles se espelharam parte em nós, nos argentinos.

Ainda temos grandes clubes, com capacidade de investimentos, com possibilidade de servirem de laboratórios, de voltar ao passado e colher frutos, mas a filosofia tem que ser implantada, daí pode surgir um novo modelo para os clubes e para a Seleção. Algumas mudanças são imediatas, do meu ponto de vista, a primeira é a separação CBF dos destinos dos campeonatos nacionais, criação de uma Liga de Clubes e a legalização do Bom Senso como representante dos atletas. Segundo, acabar com qualquer vínculo de empresários nas categorias de base, só depois de findado o primeiro contrato de um atleta é que ele pode assinar com empresários ou sair país, sendo o primeiro contrato com 16 anos e duração de 5 anos, para evitar saídas com idades inferiores aos 21 anos.

Uma nova comissão técnica com participação e diálogo com os principais treinadores do país, ou se rompe a vaidade de “divas” ou não vamos a lugar nenhum. Um trabalho que busque implantar nos clubes uma filosofia de jogo, estrutura e sistema tático espelhados na seleção, facilitando a adequação do atleta quando convocado. Apenas como exemplo, quando Tite era treinador do Corinthians, todas as categorias inferiores, dos fraldinhas aos juniores, jogavam espelhado com a equipe principal.

Os bons exemplos devem ser seguidos, mas também não podemos jogar tudo fora do que o Brasil já conquistou no futebol, a pior coisa é dizer que o futebol brasileiro morreu ou negar que esteja em crise, o importante é se reestruturar não apenas para 2018, mas para mais na frente. Uma vitória, numa Copa, pode esconder mais erros do que uma derrota, foi assim em 2002.

É hora de recomeçar, #VaiBrasil.

One thought on “Os "Milagres" de Espanha e Alemanha e A reestruturação do Brasil.”

Deixe uma resposta

%d blogueiros gostam disto: