O Mundo é onde Nascemos.

Tudo parece longe, ou parece próximo, mas o mundo é onde nascemos.
Tudo parece longe, ou parece próximo, mas o mundo é onde nascemos.

É certo que nasci num final de julho de 1969, naquela casa da Rua Humaitá, na pequena Bela Cruz, no interior norte do Ceará. Temos que ter precisão em contar nossa origem, nosso torrão natal, da terra em que brotamos, vindos de uma santa mães, que de seios fartos nos alimenta, primeiro. O quinto filho, o segundo Arnóbio, todos nascidos em casa, natural, nosso mundo era ali, de lá saímos para o mundo todo, sem jamais trair o nosso local, o nosso primeiro choro, nossos primeiros passos.

Daquela casa cheia de gentes e visitas, parentes e muitos irmãos, fui me criando no meio deles, desde tenra idade tendo personalidade única e própria, com a autonomia que tão sabiamente, nossos pais nos deram. Cada um crescendo ao seu modo, trilhando seus passos. Dos mais velhos aprendi a acompanhar seus livros e estórias de “trancoso”, do velho livro, surrado, as letras decoradas, parecia que sabia ler, mas deles saí a primeira vez da minha cidade, conheci o mundo, verdadeiro ou fantásticos daquele livro.

Ao decorar as letras, passei para outros livros, descobertos na biblioteca da “Escola Reunidas”, passei a assiduamente a ler, a pouca altura, não permitia pegar os livros mais de cima, mas os mais próximos fui devorando um a um, com a ajuda de alguma professora e da minha mãe, a diretora, Monteiro Lobato me conheceu, ou seria eu a ele? Das aventuras e caçadas de Pedrinho, passei a viajar ainda mais longe, pelo Sítio do Pica Pau Amarelo, da Cuca e dos Sacis, das coleções de Visconde de Sabugosa, acabei na Grécia, do Minotauro, de Teseu e Ariadne, aquele fio me conduziu aquela que foi, e é, a minha maior e eterna viagem.

Com o passar dos anos, Fortaleza me foi apresentada, pelo menos como a reconheci, duas vezes, dois meses, por lá morei, vivi e vi o “mundo”, como era grande, tão maior que a Rua Humaitá, ou a “estrada do barro”. A minha casa era curta de frente, mas longa de fundo, unia, até então, meus dois mundos, a rua de frente e aquela de trás, pouco ali do lado, era onde os circos se instalavam, que nós, moleques, nos escondíamos por debaixo do tablado, para ver aqueles espetáculos, da bailarina linda, mesmo que fora de forma, do palhaço gaiato, com suas piadas imorais, que todos nós, pivetes, aprendíamos sem saber o que era. Antes de Fortaleza, aquele era todo o meu mundo.

A incrível viagem a Belém, naquele julho de 1978, nunca saiu da minha memória, meu velho pai, dirigia com maestria aquele caminhão, para mim, o maior do mundo. Os dias naquela estrada parecia não ter fim, a noite não podia chorar com saudades da minha mãe, mas tudo era compensado com as milhares de estórias contadas pelo meu pai, ou pela música do toca-fitas “cara preta”. Belém, o cheiro do Ver-o-peso, da casa dos parentes, daquele sotaque diferente, ali olhando o rio Guajajara que de tão grande parecia o mar, um oceano, que do outro lado, era outro mundo. Até ali, ir ao mundo, depois voltava ao meu mundo, minha cidade.

Por mais mundo que tenha ido, é verdade, fui a muitos, Fortaleza, depois São Paulo, tantas cidades no Brasil, depois fora do Brasil, porém, nenhum mundo existiu, sem que o primeiro, minha cidade, de onde vim, tivesse existido. Aprimoramos-nos, crescemos, mudamos, estudamos e vamos nos tornando mais e mais preparados, com o tempo a idade e a leitura, mas olhando bem de perto, continuamos com o mesmo sonho e sede, do que éramos na infância – o desejo de conhecer o “mundo”, as pessoas e as gentes, as línguas e bandeiras de todos os lugares, mas com a segurança de sempre voltarmos, ali, para o nada, ou para o tudo.

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