O Fenômeno e a Farsa da Candidatura Marina.

Negar a Política é apenas um ato de demagogia política.
Negar a Política é apenas um ato de demagogia política.

Estava decidido a apenas acompanhar de “longe” o processo eleitoral em curso, sem muita intervenção aqui no blog, sem ter compromisso de uma participação efetiva ou batalha por candidatura, como já fizera, declarei meu apoio à reeleição da Presidenta Dilma e nada mais. Entretanto a morte de Eduardo Campos e sua substituição por Marina Silva torna obrigatória a minha volta mais incisiva, pois estamos em outra eleição e diante de uma perspectiva funesta, caso ela cresça e venha a vencer o pleito.

Algumas questões políticas no mundo demonstram claramente a crise de representação e da democracia, cerca de um ano e meio atrás acompanhei as eleições gerais italianas em que Beppo Grillo, um comediante pastelão, com uma organização política de “anti-políticos”, o M5S, venceu as eleições. A lista do agrupamento anti-partido de (Bicho) Grillo obteve mais votos do que qualquer partido estabelecido e tradicional, à frente do PD (sobras do PCI) e PDL (Partido de Berlusconi). A plataforma central era a negação da política e da representação, atraiu milhões de votos, elegeu uma incrível bancada: 58 senadores e 108 Deputados.

O eleitor italiano, não se deu por satisfeito com as eleições do ano passado e repetiu a dose agora em maio, na renovação do parlamento europeu, ao que pese a votação majoritária da centro-esquerda (40%), deu aos bufões “apolíticos” do M5S, de Beppo (Bicho) Grillo, quase 26% dos votos, um assombro, imagine um partido liderado por “Sergio Malandro” com tantos votos.  É um voto de protesto com graves consequências, mas principalmente um aviso: 25% dos italianos não toleram mais a política tradicional, nem qualquer forma de representação conhecida.

Esta tática de “negação” da política e dos políticos tem rendido votos aos “novos” (não) políticos, pelo menos na Itália, Grillo, foi coerente em não se alinhar com os partidos tradicionais, soube respeitar o protesto Fez crescer o Syriza na Grécia e o Podemos na Espanha. Aqui no Brasil, depois das jornadas de junho de 2013, vários (não) políticos se apresentam como herdeiros das ruas, entre estes, Marina Silva, a mais ardilosa opção política.

Ainda durante os idos de junho, com a queda de avaliação do governo Dilma, em várias pesquisas, Marina já estava ali colada nas preferências. Parte pelo recall eleitoral, parte pela imagem de alguém não vinculada aos partidos explicam o fenômeno. Misturando misticismo religioso com uma bem cultivada imagem de personalidade acima do bem e do mal, Marina, se alinhou com velhas raposas, um conjunto de figuras vinculadas ao neoliberalismo ou ultraliberalismo lhe dão suporte, sem que isto lhe prejudique, pelo menos por hora.

Marina é uma ilusória “novidade” política, ela tem mais de 30 anos de vínculos políticos e partidários, inclusive tendo passado por vários partidos e dentro do PT por várias tendências, não sendo uma “neófita” qualquer. Depois de romper com o PV e tentar lançar o seu “não-Partido”, a Rede, Marina, tentou viabilizar sua candidatura presidencial, como se fosse uma ungida das ruas. O episódio de entrada no PSB, a aliança para ser vice de Eduardo Campos, numa coligação cheia de políticos regionais retrógrados, como os Bornhausens, Heráclito Forte, a aliança com Alckmin (PSDB) e Beto Richa (PSDB), claramente não aponta para o “novo”.

A morte de Eduardo Campos, uma “providência divina”, segundo Marina, a colocou de novo no centro do debate, as pesquisas lhe são amplamente favoráveis, a extrema exposição midiática, a “viúva” e herdeira de Campos, todos são dados positivos para que alce rapidamente para liderança ou bem próximo disto. A troca de comando da campanha com afastamento de pessoas fiéis a Eduardo Campos e costura de novas alianças internas no PSB, não abalaram a imagem de Marina que não tem “compromisso com os políticos tradicionais”.

O candidato a vice de Alckmin, Márcio França que chegou a desancar Marina, repentinamente se torna seu tesoureiro e fiel aliado. No Estadão “França comentou ainda a situação de resistência de Marina em dividir o palanque com Alckmin em São Paulo. Segundo o pessebista, a situação é a mesma de antes da morte de Eduardo Campos e agora caberá ao vice de Marina abrir espaço para o tucano. “Caberá a Beto Albuquerque pedir votos a Alckmin no programa eleitoral”, afirmou”.

Tudo caminhando de forma acima do esperado, o mesmo França, comentando sobre as doações de empresários para a campanha, “afirmou que assumiu o cargo nesta segunda (25/08) e que ainda “não entrou nada”. “Mas soube por amigos que vai entrar. Empresário entra muito pela chance (nas pesquisas). É da índole se deslocar pela chance“, afirmou”( Estadão 25/08/2014, grifo meu). 

Os coordenadores e tutores econômicos de Marina, Eduardo Gianetti e Maria Alice Setúbal (Neca) trataram de dizer ao “Deus Mercado” que o projeto do “Novo” é um conjunto de medidas ultraliberais, com ênfase no BC independente e mais uma vez para qualquer tema, plebiscito, numa indicação de que congresso e negociação política não estarão na ordem do dia. Uma espécie de governo de autocratas, de déspotas esclarecidos, com programa de governo ultraliberal, o que pode efetivamente fazer o Brasil retroceder ao pré-Lula, até pré-FHC, uma aventura à la Collor.

Marina é uma ruptura radical à Direita, o passado de esquerda se perdeu no século passado, resta uma figura mística, de guru oriental, que é bem tutelada por espertos banqueiros e especialistas do mercado financeiro. A ordem cega é a derrota do projeto petista, não importando as consequências sociais e políticas, não há vácuo ou adoção de soluções “mistas” ou de governo com “FHC e Lula”, pois isto não passa de peça de propaganda para enganar os incautos.

A farsa da negação política, não serve nem para o consumo interno, todo e qualquer passo dela é político, a maioria na direção inversa do prometido, pois reforça o pior do cidadão, quando nega a política, acaba dando lugar a todo tipo de charlatão, principalmente os mais conservadores e reacionários, como é o caso dela mesma. Portanto não nos iludamos: de onde nada se espera, nada vem.

É hora de recalibrar o discurso e qualificar o debate, desmitificar a farsa e continuar construindo este duro caminho, que espero, com mais ousadia e menos medo.

One thought on “O Fenômeno e a Farsa da Candidatura Marina.”

  1. Impecável análise do Arnóbio. Estamo à beira de um retrocesso gigantesco que entregará nosso destino ao comando de velhacos banqueiros. Enquanto aparece Tiririca em 38° lugar na lista dos melhores políticos, segundo o site politicos.org.br, vejo Romario candidato a senador, Alemão ex BBBs candidato a deputado e uma massa feroz de analfabetos politicos fechando o ciclo da dominação econômica.

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