Sob o Signo da Barbárie: Estado Gotham City vs Estado Islâmico

O Mito de Procrusto, estica ou corta, a metáfora da barbárie.
O Mito de Procrusto, estica ou corta, a metáfora da barbárie.

Num artigo recente neste blog, em que tratava sobre Teseu – Pai mítico da Democracia, falei de sua iniciação heroica, e descrevi a luta contra “Procusto”, assim definida:

Por fim, para limpar de vez o Istmo, Teseu enfrenta Damaste ou Polipêmon, também conhecido como Procusto, “aquele que estica“. A crueldade de Procusto era muito temida, suas vítimas eram colocadas em uma de suas duas camas: Quando grandes, na cama menor, o que ficasse de fora ele cortava, até que a vítima coubesse na cama. Se pequenas, ele punha na cama grande, esticava-a até preencher o espaço. Teseu o mata com rapidez. Junito faz um interessante comentário sobre o significado do Procrusto: “simboliza “a banalização, a redução da alma a certa medida convencional”. Trata-se, no fundo, como asseveram, com propriedade, Chevalier e Gheerbrant, da perversão do ideal em conformismo. Procusto configura a tirania ética e intelectual exercida por pessoas que não toleram e nem aceitam as ações e os julgamentos alheios, a não ser para concordar. Temos, assim, nessa personagem sanguinária, a imagem do poder absoluto, quer se trate de um homem, de um partido ou de um regime político”.

Nada pode melhor representar a metáfora atual de um mundo em luta, em processo do que Procrusto. De um lado o Estado Gotham City, melhor representado pelo EUA, o senhor imperial sobrevivente do século XX, que atravessa a maior crise desde 1929. Em outra mão, o Estado Islâmico, gerado nas prisões e cativeiros do Iraque, Afeganistão, invadidos pelos EUA, dali surgiu uma força bruta de resistência, amadurecido e incentivado nas disputas tribais, depois de se fortalecer, parte para os ataques cruéis de “decepar cabeças”.

A Crise de Superprodução de Kapital em curso é paradigmática, assim como sua saída, também é. Se em 1929, a saída do Kapital foi a criação do Estado de Bem-Estar Social, uma intervenção do Estado na Economia, como forma de regular o mercado e centralizar a produção de Kapital, para distribuição privada da taxa de lucros, em especial para fração burguesa que o controlar. Assim, o Ocidente, liderado pela potência emergente, os EUA, pôde enfrentar e derrotar o leste europeu e sua experiência revolucionária, primeiro vitoriosa, depois burocratizada pelo stalinismo.

A queda da ex-URSS coincide com o completo domínio do Estado pelos grandes bancos, em especial o Goldman Sachs, a liberdade do Kapital parecia não ter fronteiras, a política de um novo liberalismo exigiu a quebra do Estado de Bem-estar social, pois o Leste Europeu já não assustava e a classe trabalhadora derrotada, o Kapital exigia a total Liberdade. O fim dos anos 90 e o nascer do novo século inaugurava a nova era do Kapital, o fim da história, a Europa única, a América Latina sob o domínio do neoliberalismo.

Tudo dançava conforme a música do Kapital, mas veio o 11 de setembro, as novas guerras e as invasões, a festa do complexo militar gigantesco dos EUA, o que acabou incrementando mais ganhos e dividendos, até a Crise clássica de Superprodução de Kapital. Em meados de 2005, todos os índices da economia dos EUA, a maior do mundo, tiveram seu auge, salários, renda, desemprego baixíssimo, valores dos imóveis no pico, ali explode a crise, a maior e mais cruel desde 1929. Em pouco mais de dois anos, a quebradeira se inicia de forma desenfreada, os bancos com suas mágicas hipotecas, transformadas em subprimes, são engolidos por sua ganância, o auge desse movimento foi o 15 de setembro de 2008, a quebra simbólica do Lehman Brothers.

O velho Estado, dominado pelos banqueiros, fez a maior operação de salvação do Kapital da história, cerca de 40% do PIB dos EUA e quase 33% do PIB da UE é usado para injetar dinheiro nos bancos e segurar o sistema como um todo, a maior transferência de riquezas da história moderna. Os números são superlativos e ajudam a entender a razão de que apenas 8 PIBs depois, descontada a inflação, os EUA voltaram a ter um PIB positivo, ante 2005. A UE ainda patina e estaciona diante da riqueza produzida de 2007, que já não é mais alcançada.

As consequências para os trabalhadores foram terríveis, o desemprego nos EUA teve seu auge em 2009 com o dobro de desempregados diante de 2005, a renda média dos trabalhadores e da classe média americana, uma boa parte dela com lastro nas hipotecas fantasiosas, teve perda superiores a 33%. Os gastos públicos para salvar os bancos não salvou a maioria da população, apenas migalhas. O programa de segurança alimentar (Food Stamps, uma espécie de Bolsa Família) aumentou de 30 milhões para 45 milhões de beneficiados, nos últimos 10 anos. Os números europeus são muito mais dramáticos, em especial para os jovens, pois em alguns países o desemprego para eles estão acima de 50%.

A saída do Kapital para iniciar um novo ciclo de acumulação, primeiro foi a queima de forças produtivas, como visto no parágrafo anterior, e depois é aprofundar o ataque ao Estado, aquilo que denominamos Estado Gotham City. As Agências se impuseram diante do governo, em especial o FED, efetivamente não existiu um governo Obama, mais correto seria dizer um governo Bernanke, a política econômica foi a imposta por ele, de acordo com a vontade dos banqueiros, em particular do Goldman Sachs.

Os dois pilares do velho, velho Estado – Democracia e Política – estão feridos de morte, a perspectiva é sombria, a burocracia perene das Agências substituíram a possibilidade de mobilidade política de ideias de governos eleitos e seus programas, estes, serão apenas fantasmas, fantoches, sem expressão de vontade e força de imposição programática. Sua única “força” é a da repressão interna e/ou externa, uma verdadeira excrecência. (ver mais em A Morte da Democracia e da Política?)

Fielmente, Obama, continuou e aprofundou a política externa de Bush Jr, as intervenções no mundo árabe em especial causaram mais instabilidade. Produzindo mais insegurança e reações, como agora lideradas pelo Estado Islâmico, a resposta mais elaborada e brutal a esses anos de presença militar dos EUA no Iraque, Afeganistão, Paquistão, além de insuflar revoltas no Egito, Síria, Turquia, apoiar o desmonte da Líbia. O resultado final é um novo tipo de grupo, impiedoso, o retrato acabado da barbárie que se aproxima.

Voltemos ao Procusto, pois se a cama é curta, corte a cabeça, a cama é grande, estique o corpo. Este é o mundo da barbárie, não temos Teseu, muito menos a Democracia, só nos resta ir à luta, sobreviver a Política.

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