Da Inação

Laurence Olivier como Hamlet.
Laurence Olivier como Hamlet.

“De todos faz covardes a consciência” (Hamlet – W Shakespeare)

O Hamlet é, para mim, a mais completa obra escrita, por mais que leia e releia, nas mais de 20 vezes, tenho a nítida sensação de que é a primeira vez, mais ainda, há sempre novidades e percepção de que não consegui saber o exato sentido da peça, ou que contem algo secreto, certo segredo que não ousei descobrir. A paixão pelo pequeno livro continua irresistível e renovada, uma fonte de inspiração e busca interior.

Na primeira vez que minha filha teve leucemia, em junho de 2010, passei mais de mês em estado catatônico, sem entender nada, sem aceitar os fardos da vida, os dardos adversos. Foi através de uma leitura de Hamlet que “acordei”, mesmo muito atordoado, escrevi o texto abaixo, meio confuso e impreciso, parece muito com o que voltei a viver nestes últimos quatro meses.

Era um texto comparativo, que investigava a relação da sucessão entre Cronos/Urano com a luta pelo trono de Hamlet Pai/ Hamlet Filho e de Cláudio, o tio usurpador do trono e da cama do irmão, que tenta domar o sobrinho. Como segue o texto:

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Com Hamlet teremos a oportunidade de acompanhar uma sucessão traumática de duplo caráter, o jovem tem de matar não somente o pai (morto, mas insepulto, um fantasma a lhe assombrar), rei velho, mas também aquele que o matou, seu tio e que corrompeu sua mãe.

O duplo fantasma: do pai que lhe exige vingança e do “novo” pai (seu tio Claudio) que lhe exige fidelidade e ao seu reinado. Nesta confusão de sentimentos o príncipe filósofo, que vive numa rude Dinamarca, solta talvez a mais crua e forte reflexão sobre as dúvidas que mais atormentam a alma humana:

“Ser ou não ser… Eis a questão. Que é mais nobre para a alma: suportar os dardos e arremessos do fado sempre adverso, ou armar-se contra um mar de desventuras e dar-lhes fim tentando resistir-lhes?

Morrer… dormir… mais nada… Imaginar que um sono põe remate aos sofrimentos do coração e aos golpes infinitos que constituem a natural herança da carne, é solução para almejar-se.

Morrer.., dormir… dormir… Talvez sonhar… É aí que bate o ponto. O não sabermos que sonhos poderá trazer o sono da morte, quando ao fim desenrolarmos toda a meada mortal, nos põe suspensos.

É essa ideia que torna verdadeira calamidade a vida assim tão longa! Pois quem suportaria o escárnio e os golpes do mundo, as injustiças dos mais fortes, os maus-tratos dos tolos, a agonia do amor não retribuído, as leis amorosas, a implicância dos chefes e o desprezo da inépcia contra o mérito paciente, se estivesse em suas mãos obter sossego com um punhal? Que fardos levaria nesta vida cansada, a suar, gemendo, se não por temer algo após a morte – terra desconhecida de cujo âmbito jamais ninguém voltou – que nos inibe a vontade, fazendo que aceitemos os males conhecidos, sem buscarmos refúgio noutros males ignorados?

De todos faz covardes a consciência. Desta arte o natural frescor de nossa resolução definha sob a máscara do pensamento, e empresas momentosas se desviam da meta diante dessas reflexões, e até o nome de ação perdem.…” (ATO III , Cena I)

Muitos de nós conhecemos os trechos iniciais do ..ser ou não ser… Raramente sabemos o momento em que são pronunciadas e as fatais consequências. O monólogo dar-se no momento crítico do livro, Hamlet, já sabedor de que seu pai fora morto, também sabe que seu novo “pai” é o assassino, mas a inação lhe consume e faz com que tenha este longo debate de seu ser.

No fundo o homem que aparece agora é o homem do Renascimento, que carrega o saber grego e da alta cultura, mas, agora, é irresoluto, domina sua hybris, mas se revolta por não ser mais primitivo e dar cabo aos seus sofrimentos, que no amago é o mesmo de Cronos, porém, aquele, de forma simplificada resolveu seus traumas em relação ao pai, matando-o.

Porém este novo homem, mesmo vivendo na Dinamarca medieval, já não “mata” o pai, ou os pais no caso, não de forma literal, a sofisticação lhe impede de um simples ato morte, é mais complexo e sutil, agora ele reflete, pondera, tem medo dos seus atos e de suas consequências funestas, mas ao mesmo tempo lhe enche de ódio e revolta ao não dar cabo à sua angústia.

Deste longo debate da consciência moral x consciência primitiva, nascerá o novo homem, que guerreia disputa poder, mas não é mais produto da natureza irracional.

Neste momento de tormenta que passo, lembrou-me vivamente deste monólogo, foi uma forma que encontrei de voltar a escrever, me abstrair das coisas que vivo intensamente. Estas reflexões que Hamlet fez, martelam na minha cabeça diariamente, tem coisa mais atual do isto?

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Relendo e me olhando pelo espelho, mais atual, impossível. Tentemos ficar bem.

Olivier’s Hamlet film (1948): To Be Or Not To Be soliloquy

Imagem de Amostra do You Tube

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