As Rupturas Oportunistas na Esquerda.

 

Qual a Imagem vale? Fora ou Dentro, Cunha? Getty images
Qual a Imagem vale? Fora ou Dentro, Cunha? Getty images

“A política adora uma traição, mas não perdoa o traidor” assim dizia Leonel Brizola

Nos últimos dias uma série de políticos, no espectro de esquerda, tem rompido com seus partidos e rumado para novas aventuras. Em especial, esse movimento, acontece no PT, a maior legenda política organizada no Brasil com corolário de esquerda, que perdeu diversos quadros, numa combinação de pragmatismo e oportunismo eleitoral.

A maioria saiu buscando legenda para próxima eleição, como são os casos de Marta Suplicy (Senadora por São Paulo) e Alessandro Molon (Deputado Federal pelo Rio de Janeiro). Mas há outros casos que se avizinham que não estão ligados diretamente às próximas eleições, como se cometa da possível saída dos gaúchos, Tarso Genro e do Senador Paim, que estariam indo para Rede Sustentabilidade, o estranho partido da Marina.

Uma questão que venho debatendo a anos é sobre a troca de partidos, algo extremamente comum na Direita, mas que contaminou a Esquerda, nem falo de rupturas clássicas, como as que deram origem ao PSTU, em 1992, ou a PSOL, em 2005, as mais recentes no PT. Mas uma ação comum em que os parlamentares saem e levam seus mandatos, para mim, um verdadeiro absurdo, que deseduca e banaliza a ruptura, provando que, na maioria das vezes, é fruto de oportunismo eleitoral e que acabam se igualando aos políticos de direita.

Um levantamento feito pela Câmara dos Deputados diz que “Apenas 36 dos 513 deputados federais que vão compor a Câmara na próxima legislatura (2015-2018) alcançaram o quociente eleitoral com seus próprios votos. Desses, 11 são parentes de políticos tradicionais em seus estados. Os outros 477 eleitos foram “puxados” por votos dados à legenda ou a outros candidatos de seu partido ou coligação. O número é o mesmo de 2010, quando também houve apenas 36 deputados eleitos com votação própria”. (Site Câmara dos Deputados:Apenas 36 deputados se elegeram com seus próprios votos , 07/10/2014).

O que se verifica é que apenas 7% dos deputados federais seriam efetivamente “donos” dos seus mandatos, portanto nada justifica que um deputado rompa com seus partidos e leve consigo seu mandato, pois esse não lhe pertence. Isso apenas olhando do ponto de vista formal e eleitoral, sem falar na questão ética, do compromisso assumido diante de partido e de sua base eleitoral, que parece sempre ser secundário, o que prevalece é a vontade pessoal, acima de um coletivo.

É importante entrar no mérito de algumas dessas rupturas, pois de tão esdruxulas, são inacreditáveis, beirando ao ridículo. Por exemplo, Marta Suplicy vai ao PMDB para “combater os desvios éticos e de corrupção do PT” (não, não é piada a frase), ainda mais quando a Senadora estava ao lado de ninguém menos que Eduardo Cunha, acusado de corrupção por longos anos, ou lembrar que ele lidera a bancada homofóbica, justamente a base eleitoral contrária às posições, corretas, de Marta em favor da igualdade sexual.

Como explicar algo assim para um eleitor? E o ódio antipetista recém-adquirido? Antes, escrevi outro artigo sobre o deslocamento de Marta Suplicy (Marta Suplicy e o Ritual de Passagem ao Antipetismo.), infelizmente estava errado, foi muito pior.

Alessandro Molon agora diz que o PT não é mais o mesmo, de esquerda, que virou “sublegenda” do PMDB do Rio de Janeiro, sim, está certo, mas isso aconteceu hoje ou já vinha desde antes de 2014? Por que ele aceitou a candidatura nessa “sublegenda”? Mas aí somos informados que o ilustre deputado está indo para Rede, um partido que tem uma Dona, Marina, aquela mesma que apoiou Aécio Neves para Presidente, onde está a coerência de Molon? Ah, mas ele será candidato a prefeito do Rio de Janeiro, sem mais.

Também não menos sintomáticas são as rupturas da Vereadora Heloísa Helena e do Senador Randolfe Rodrigues, PSOL, único senador eleito pelo partido, que acaba de sair da agremiaçãoo e vai junto com a vereadora para a Rede. A coerência, ou a lógica, é ZERO, nada justifica romper com uma organização de esquerda e ir para um grupo de Direita, com verniz de ex-esquerdistas, a muito arrependidos, francamente rancorosos.

Mas a pergunta é sempre a mesma: Por que os parlamentares não devolvem os mandatos “maculados”? Por que não dão algum exemplo de que querem construir algo diferente, de que a política não se resume ao calendário eleitoral? Agem e pensam como qualquer político carreirista e oportunista de plantão pronto para “trair”, não apenas ao partido da vez, mas aos seus eleitores de boa-fé.

Repito: TODOS têm o direito de romper, mudar de partido, de clube, mas não venham com conversa fiada na hora de fazê-lo, sejam honestos (é exigir muito?) quando agirem, nem todos engolem esse tipo de manobra. O eleito não perdoa, como bem disse Brizola.

PS: 1) Hoje, li que dois jovens deputados federais eleitos pelo PC do B, o ex-judoca João Derly ( Rio Grande do Sul) e Aliel Machado, romperam com o partido e se filiaram à Rede Sustentabilidade, que mais parece “rede de arrasta”. Coerência ZERO, mais uma vez, de ambos, pois não devolveram seus mandatos ao partido que os elegeu.

2) Também saíram do PSOL para Rede: os deputados estaduais fluminenses Paulo Ramos e Dr. Julianelli. O vereador Márcio Garcia, um dos líderes da greve dos bombeiros, também se filiou ao partido de Marina Silva. Ele, que era do PR, foi candidato a vice-governador na chapa de Anthony Garotinho, em 2014. Além de do vereador Jefferson Moura também do Rio de Janeiro.

3) Em menos de 10 dias a Rede cooptou os seguintes parlamentares:

  • Senador Randolfe Rodrigues (ex-Psol/AP)
  • Deputado Federal Alessandro Molon (ex-PT/RJ)
  • Deputado Federal Miro Teixeira (ex-PROS/RJ)
  • Deputado Federal Aliel Machado (ex-PCdoB/PR)
  • Deputados Federal João Derly (ex-PCdoB/RS)
  • Deputado Distrital Claudio Abrantes (ex-PT/DF)
  • Deputado Distrital Chico Leite (ex-PT/DF)
  • Deputado Estadual Paulo Ramos ( ex-Psol/RJ)
  • Deputado Estadual Dr Julianelli ( ex-Psol/RJ)
  • Deputada Distrital Luzia de Paula (ex-PEN/DF)
  • Vereadora Heloísa Helena (ex-Psol/AL)
  • Vereador Jefferson Moura (ex-Psol/RJ)

É ou não é uma Rede de arrasta?

4 thoughts on “As Rupturas Oportunistas na Esquerda.”

  1. Molon (Rede-RJ) disse que saiu do PT porque “o PT se tornou uma sublegenda do PMDB”. Mas, em 2008, ele só não foi o candidato do então governador Sérgio Cabral (PMDB) porque em algumas cidades do interior o PT não aceitou ceder a vaga de candidato para o partido do governador. Assim, Cabral optou por lançar Eduardo Paes que teve que deixar às pressas a Câmara dos Deputados para tomar o lugar do arrumadinho Alessandro. Acho que Molon se elegeria fácil em 2008, pois, na época, Sérgio Cabral elegia quem quisesse.

    1. Sr Bevilacqua,

      A única coisa que posso fazer é lamentar, profundamente. Mas lembro da poesia que diz sobre “os homens que lutam um dia e, são bons….” Respeito o grande jurista e sua contribuição na luta contra a Ditadura, infelizmente ele tomou outro caminho no fim da vida.

      Respeitosamente,

      Arnobio Rocha

  2. No momento, ainda perplexo, gostaria que a ilustre senadora, Marta Suplicy, devolvesse meu voto, pois me sinto traído, de maneira vergonhosa. O que mais me deixa indignado, é o fato dela posar ao lado de gente criminosa e traidora (como ela). Depois querem dizer que a Presidente envergonha o Brasil, lá fora. O que dizer dos(as) Políticos que nos envergonham, aqui dentro? Nos meus 73 anos de vida, imaginei que nunca mais veria a repetição de 64, quando nosso País teve o pior primeiro de abril de sua história; uma horrível “brincadeira” que durou 21 anos de torturas, assassinatos, desaparecimentos e desmandos, destruindo nossa liberdade. Infelizmente, de novo, o mesmo tipo de políticos, que trocam de lado, como se trocassem de roupa, traindo eleitores e ideais, transformaram o Congresso Nacional numa espécie de pocilga. O Povo Brasileiro não merecia esse “nocaute” tão perverso. Espero que as consequências desse jogo imundo e mal cheiroso, não termine como no fatídico 64. Mas espero que tantos Parlamentares, olhem-se no espelho e envergonhem-se do reflexo opaco de sua imagem; se não temem do julgamento severo da História, que se envergonhem dos olhares perplexos de seus familiares, filhos e amigos, quando se inteirarem da verdade. Um último desejo (esse eu imploro a Benção de Deus): que os(as) eleitores(as) percebam o quanto são falsos(as) e nunca mais votem nessa gente…

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