Letícia, Uma Guerreira de Luz

A Letícia e seus maiores apoios, mãe e irmã.
A Letícia e seus maiores apoios, mãe e irmã.

Cena I

28 de Fevereiro de 2015, 14 horas – Pronto Atendimento Infantil Hospital Santa Catarina.

Estamos no consultório com a Dra. Maria Tereza Assis de Almeida, a Dra. Tet, que nos diz diretamente:

_Infelizmente, a doença voltou, deu enguiço, a Letícia está com Recidiva de Leucemia tipo LLA (Leucemia Linfoide Aguda), vamos recomeçar tudo de novo.

Luana, minha filha mais nova, pergunta:

_O cabelo dela vai cair de novo?

_ Sim, é provável que caia de novo, respondeu a Dra. Tet.

Luana começou a chorar copiosamente, meus olhos e os da Mara se encheram de lágrimas. Eis que ali, na maca, a Letícia falou firme:

_Parem de choro, a doença é minha, a dor é minha, então quem quiser chorar vá lá para fora.

Nosso mundo caíra pela segunda vez, depois de termos vencido o primeiro grande desafio e termos passados dois anos e dois meses de pura felicidade. Agora, a recaída, os riscos e as dores, e uma enorme incerteza nos assaltava, pois até sobre qual técnica de tratamento seria adequada para debelar a nova doença, havia dúvida.

Somente a dureza das palavras da Letícia não deixava dúvida de que ela iria lutar contra qualquer coisa. Imediatamente somos informados da internação, sem prazo para sair do hospital.

Cena II

02 de Fevereiro de 2016, 10 horas – Sala do meu trabalho/sala da minha casa.

Nervosamente, eu estava atualizando o site da Fuvest (empresa que organiza o vestibular da USP – Universidade de São Paulo) a cada quinze segundos,  demora e nada de vir o resultado do exame. Desde a madrugada mal dormida, aguardando a listas com os nomes dos aprovados, ainda que soubesse que apenas às dez da manhã seria divulgada.

Finalmente a tela abriu para que digitasse o CPF do inscrito. Nova demora e, finalmente, na tela:

Letícia Alves Rocha, CPF, “Você foi chamada para 1ª Matrícula, carreira Escolhida: Odontologia”.

Li umas três ou quatro vezes, as lágrimas descendo, o peito doendo, as mãos trêmulas digitando o número de casa, Letícia atende, eu balbuciei:

_Você conseguiu, você passou na USP, Odontologia, curso integral.

Ela apenas gritava e pulava:

_Eu passei, eu passei, te amo pai, te amo mãe, eu consegui.

Choro longo, muitas lágrimas, as mais doces já experimentadas por mim, por ela, pela mãe.

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Nada vai superar esse momento, em um ano e cinco dias “fomos do inferno ao céu, passando pela terra”, como dizia Goethe. Do mais assombroso pântano ao nirvana. Uma luta que nos metemos e que em muito superava a primeira vez que a Leucemia nos visitou, em 2010, não sabia como lidar com os novos e terríveis sentimentos.

As missões dadas pela médica eram difíceis, quase impossíveis, pois teria que comprar as drogas que não são vendidas no Brasil, o próprio laboratório nos EUA não aceitando vender, com tempo exíguo, pois o tratamento dependia integralmente dessas doses. Teria ainda que garantir o atendimento e a internação no hospital com o plano de saúde.

A loucura de ter que lidar com as frustrações dela, com as nossas e ainda teria conseguir trabalhar, pois há (continua tendo) o risco de perder o emprego, consequentemente, o plano de saúde. Doses cavalares de tensão, medo, choro escondido, pois ela queria nos ver firmes e fortes, mesmo com a rotina do hospital/casa/trabalho, ainda rezar pelo sucesso da nova técnica usada para debelar a doença.

Entre fevereiro e junho de 2015, tudo foi feito para que a medula funcionasse perfeitamente, sem presença dos blastos, a maior parte desse tempo a Letícia ficou longe da Escola, algumas vezes internadas, outras em casa sem que pudesse frequentar regularmente as aulas.

Vestibular, ENEM, Faculdades, tudo virou um mundo distante, pelo menos para mim, estava conformado, qualquer coisa que ela fizesse já seria demais, mesmo sendo ótima aluna, o prejuízo era enorme, então não podíamos nos iludir demais. Pensava assim: Apenas em está aqui conosco, viva, sorridente, vê-la indo toda quarta-feira fazer exame de sangue e depois ter sessão de quimioterapia, sem reclamar, já era coisa demais, por que exigir mais?

Ao ver seu nome na lista da USP, confirmar o desejo de matrícula, é algo fantástico, um filme seria pouco para retratar essa epopeia. A Lê se inscreveu num site Make-A-Wish, querendo participar de um filme, mas tem filme melhor que esse? Tem história mais edificante do que essa, protagonizada integralmente por ela?

A vida é bela. Obrigado, minha filha, minha amiga, minha heroína. Você seguiu o seu sonho, quando poderia apenas se deixar vencer, com todas as justificativas pertinentes associadas, mas não, foi para cima e venceu.

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PS: Para Mara, a verdadeira fortaleza da casa. E para, Luana, a irmã que tanto amor lhe dedica.

1) Obrigado, ao Colégio Rosário, por todos os anos que nos ajudou, acolheu e cuidou da nossa guerreira, a retribuição dela aos professores, direção, veio com essa aprovação. Eternamente gratos;

2) Obrigado, Dra. Maria Tereza Assis de Almeida, nada seria possível sem sua inteligência, dedicação e carinho pela Lê;

3) Obrigado, as enfermeiras do Hospital Santa Catarina.

4) Obrigado, Dra. Liliana do temível Líquor, que virou quase uma brincadeira, com a sua mão de fada;

5) Obrigado aos nossos pais, irmãos, familiares e amigos por todo apoio que tivemos nessa jornada;

17 thoughts on “Letícia, Uma Guerreira de Luz”

  1. Arnóbio, diga a Leticia que as lágrimas que agora descem pelo meu rosto são de pura alegria. A doença é dela, o sofrimento… Um pouco nosso, que assistimos de longe. Mas a alegria… Essa ela tem que dividir com a gente, por favor. E, então, vamos dar aquele famoso grito cearense: YEHHHH!!!

  2. Chorei. As lágrimas descem dos nossos olhos ao presenciar essa historia de luta e suoeracao, que por ser tao maravilhosa parece ficção, mas é real. Parabéns para a Família Rocha, o nome já diz tudo !!!!!!

  3. Letícia, que Deus continue te abençoando e que você continue transmitindo força, luz, alegria, simplicidade, amor e paz. Sou grata por ter convivido com alguém tão especial como você. Saudades! Eli

  4. Amigo Corintiano, DEUS é GRANDE. Ele sabe o que faz…

    Fiquei feliz por sua filha. Realmente ela é uma Guerreira. Uma lição de vida!!!

    Parabéns pela família e principalmente a sua filha por ter ingressado em uma das faculdades mais concorridas do pais.

    É nóis …. VAI CORINTHIANS!!!! KKKKKKKKK

  5. Hoje resolvi clicar em num comentário feito por ti e me deparei com esta história, jamais imaginei que tivesse passado e passando por tudo isso, a distância separa as pessoas fisicamente mas não consegue fazer com que esqueçamos os verdadeiros amigos.
    Também passei por isso, um câncer de mama em 2012, e sei como é dificil e o quanto é importante sabermos que que as pessoas ao nosso redor estão fortes para nos fortalecer, por isso meu amigo você e Mara devem procurar se fortalecer o quanto puderem e assim farão com que a Letícia se sinta protegida, fortalecida e lute pela cura.
    E eu aqui de longe também estarei pensando positivamente para isso. Pois só quem passou por isso sabe o que isso representa. Um grande beijo para vocês.

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