A Ruptura do Kapital: A Barbárie

George Grosz – Widmung an Oskar Panizza (Los funerales del poeta Oskar Panizza) 1918

“Ah, céus. Que dilúvio de males inunda a Pérsia e a raça inteira dos bárbaros”.(Os Persas, Ésquilo)

O mundo tem muita sorte por contar com a providencial ajuda do campeão pela liberdade e democracia, o Sr George Soros. O homem é um colosso, como escrevi antes aqui (Soros – O “Exportador” de “Revoluções”, digo, Golpes.). Sua última aventura é provar que Donald Trump não venceu as eleições, mas sim que houve uma trampa russa que o fez Presidente. Go, Soros!

Por outra mão, o mundo continua estupefato sobre o como será o governo bufão de Trump, honestamente não entendo com o que se preocupam, vivemos o mais do mesmo a quase quatro décadas, quando o maior dos farsantes chegou à Casa Branca, sem que o mundo acabasse, ao contrário. O ator de filmes B, Sr Reagan, estava presidente, mas quem realmente mandava era o Democrata ultraliberal, Paul Volcker, o homem do Goldman Sachs no FED.

Esse é o centro do mundo atual, que a democracia representativa ruiu e não representa mais nada. Os presidentes eleitos, os primeiros-ministros, assim como os parlamentos e congressistas hoje não mudam uma vírgula do que está estabelecido pelo Kapital Financeiro e seu controle sobre o Estado através das Agências Reguladoras, fonte última de poder e determinação dos caminhos da vida da sociedade, de forma quase “invisível”.

O executivo de mãos atadas pelas agências, o legislativo sequestrado pelos lobbies (legalizados ou não), sobra o judiciário a última perna da tríade do Estado moderno, que se divorciou completamente do mundo real, vivendo com privilégios e agindo por força do mesmo tipo de burocracia perene, aliás, eles foram a inspiração do poder das agências, que não prestam nenhuma obediência aos trabalhadores ao povo, uma autonomia sui generis de Poder Real, não apenas formal.

A crise do Estado Moderno, que muitos atribuem à crise de representação, tem nessa, apenas a aparência dos problemas, quando na verdade o que de fundo temos é o fim da concepção da Democracia e da Política, no modo clássico greco-romano (formulação de Giorgio Agamben, a quem nos associamos nessa análise). Várias vezes analisamos essa questão tão pertinente e decisiva para as ações públicas de qualquer grupo político que queira lutar por uma ruptura na atual sociedade.

No conceito que trabalhamos de Estado de Exceção, como Regra, que prefiro denominar Estado Gotham City, que é a preparação da completa autonomia da plutocracia em relação à Democracia Formal: Povo, Estado e Nação. Em nome de um Poder Real, do Kapital (sua fração principal: O Kapital Financeiro), o Estado passa a funcionar prescindindo de qualquer tipo de intervenção popular, voltado exclusivamente para o 1% que efetivamente determina a riqueza e os destinos da humanidade.

Por contradição, decorrente dessa premissa, um Trump da vida efetivamente não tem poder nem de ir ao banheiro sem que alguém o monitore e diga que papel use. Obviamente que o jogo de cena e o show deve continuar e na pequena porção que o eleito pode nomear, ele escolhe os piores entre os piores, nem que seja para constranger a já combalida democracia formal.

Um Berlusconi, bunga-bunga, um pequeno Sarkô, até mesmo um pequeno e insosso Temer, são figuras tipicamente desse momento torpe e de grande mudança do mundo. O tempo parece longo para nossa geração, mas historicamente não passo de um facho de luz (ou ausência dela). Assistimos perplexos aos eventos de ruptura, o escárnio provocado, mas ficamos impotentes diante deles.

O máximo que consciente ou não se faz é negar o modo de vida em que (sobre) vivemos. Os altos índices de abstenções, as eleições de plataformas fascistas ou de candidaturas caricatas, são as formas visíveis de contestações ao que assistimos. Há um profundo desprezo pela Democracia e pela Política, o que, em última análise, é exatamente o que mais deseja o Kapital. A desorganização e a indiferença não geram energia positiva para derrubar o sistema, ao contrário, o reforça.

A cada vez que abrimos mão de lutar, menos democracia e mais avanço da barbárie sobre os 99% do mundo. Juridicamente as exceções vão se impondo por medo do Terror ou medo da Corrupção, assim, voluntariamente, se aceita que os direitos sejam surrupiados, o maior deles a liberdade e a possiblidade de lutar.

Esses são os elementos de maior choque e conflitos da humanidade, não importa se estamos falando dos EUA, da China ou do Brasil. O que avança sobre nós é uma nova ordem sem Democracia e sem Política, o Estado de Exceção é a face jurídica e de força que garante o Poder Real aos seus donos e seus representantes (não eleitos).

Um mundo em ebulição, mas sem política de classes que nos liberte.

2 thoughts on “A Ruptura do Kapital: A Barbárie”

  1. Estava pensando nisso hoje mesmo, Arnobio! A luta de classes está dispersa, muitas causas (justas!, não nego…), muitos movimentos isolados, e a classe operária abandonada, seus direitos indo pro espaço em toda parte, na China, na Ásia em geral, na África, na América Central, mesmo na velha Europa de trabalhadores imigrantes ganhando miséria… Nada sustenta a resistência ao capital, nada, a não ser a luta dos trabalhadores, e essa virou história. :(

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