Das Repetições

Escrecer é subir e ver rolar de volta a nossa pedra, numa repetição de Sísifo.
“Curei nos homens a preocupação da morte.
(…)
Alojei neles as cegas esperanças”
(Prometeu Acorrentado – Ésquilo)

No fundo apenas nos repetimos e repetimos os nossos roteiros, ainda que de vez em quando trocássemos algumas palavras, sem muito compromisso com os que não leram antes, nem irão perceber a mesma fonte, os mais atentos entenderão o desejo de reafirmação de ideias que muitas vezes voltam, pois eles mesmos estão submersos a milhões de opções, com certeza melhores do que os meus textos.

Intuí que reescrever as diatribes é uma forma de reabrir um diálogo com o que já conhecemos, mas que dificilmente tornaremos a conversar sobre, quase um papo de “surdo/mudo”. Há também uma boa possibilidade, pedante, de que assim agimos por uma satisfação íntima de tornar público o nosso conhecimento acurado sobre algum tema, que outros desconheciam ou dão pouco valor, que, entretanto nos são caros demais.

Tantas vezes me reapresento e digo quem sou ou do que sou feito e curiosamente alguns poucos lembram, essa vaga ideia nos obriga a assim proceder, um dia cansarei e nada mais direi. Por vaidade ou algum sentimento vago qualquer, prossigo e retomo um velho texto que expressa a definição que melhor caiba em mim. Como segue quase um mantra, ou uma música do Renaissance que alguns ouviram e estranharam ao fazê-lo.

Minha trajetória talvez seja pouco comum, pois foi toda trilhada distante da academia, ou dos círculos intelectuais, sobrevivendo aos mais variados momentos da vida política ou social, das obrigações de trabalho e familiares. Porém, só aqui, neste blog, pude efetivamente enfrentar o medo de ultrapassar a tradição oral, por a termo, as mais variadas ideias e conhecimentos adquiridos no caminho, muitas vezes chego aos limites das forças, os desânimos naturais, as dúvidas sobre a validade do que aqui escrevo, o que significa para mim, ou para vocês. As energias são sugadas pelo cotidiano, as pancadas da vida ou a falta de respostas concretas.

Os anos vão avançando e o monólogo continua, as circunstâncias de romper o cerco se tornaram piores, assustadoramente nos isolaremos ainda mais. O fiapo de esperança ressurgido após a ruptura do Muro de Berlin está sendo destruído. Uma pavorosa onda reacionária e burra tomou conta do cenário, as pessoas tentam sobreviver (o que é justo) e se recolher, pois não o que ser dito, falado, o silêncio (alienação) é a melhor resposta.

Obviamente nos tornamos personagens caricatos e risíveis, sem a noção do ridículo que a melhor oferta seria apenas se calar, já que quase ninguém quer ler ou ouvir, em especial aos que não conhecem, por que iriam abrir um diálogo? (Nunca fale com estranhos). A máxima se impõe, a vida segue e nós teimamos em nos repetir, até quando?

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