2145: Fátima Rocha – 80 Voltas em torno do Sol (Post 2145 – 208/2022)


Os 80 anos de Fátima Rocha

Querida mãe, sua benção.

Todas as minhas mais longínquas lembranças de mim têm a presença da senhora, as mais remotas são as de lhe acompanhar à Escola Reunida, escola pública de Bela Cruz, em que a senhora era a diretora e eu ficava na pequena biblioteca, uma sala ao lado da sua e dos professores. Estar ali era ter a senhora por perto, a proteção dos livros e viagens, e do seu olhar cuidadoso.

Veem à mente as nossas viagens para Sobral, no começo dos anos de 1970, a senhora ia para Faculdade, depois da semana de trabalho, o fim de semana era de estudos. E sempre que dava, a senhora me levava, aquelas estradas de terra, ruim, os atoleiros, seu Aldo dirigindo a Rural, minha alegria era que estava ao seu lado. Lembro do “cursinho” para vestibular que a senhora ia dar aulas, eu assistia admirado, latim, português e noções de inglês.

Recordo de uma viagem inesquecível para uma reunião da senhora, na delegacia de ensino em Itapipoca. Fomos num fusca, a estrada estava sendo preparada para o primeiro asfalto, então tinha que ir pela lateral, o pneu furou e a senhora trocando o pneu, só aumentava minha admiração por sua coragem e determinação. Nossa mãe, 5 filhos, diretora de escola, companheira do nosso pai, caminhoneiro e tão bom companheiro, no meio de uma família machista, ele a apoiava em tudo, ser independente, trabalhar e estudar.

A competição dos 4 irmãos era pelo papai, seu jeitão sedutor, saber a quem ele mais gostava, desde sempre, tive a sorte de ser seu “filho”, não que do meu velho desgostasse, mas era a senhora a quem mais amava, a quem dizia quando fazia danações e merecia umas chineladas: “Pancada de amor não dói”, acabava perdoado, sem apanhar.

Nossas memórias mais antigas são as mais puras e sinceras, as que no definem para todo o sempre, o respeito pela senhora, pelas mulheres, por seu exemplo, seu avanço no tempo, de sua independência, seu amor incondicional ao seu companheiro de toda vida, não lhe afastou de seus sonhos e realizações profissionais e pessoais, algo imenso, uma lição para todos nós.

Todas as nossas fases da vida, a enorme proteção que a senhora me deu, quando me tornei o primeiro comunista de casa, no começo dos anos 80, em Fortaleza, sumir de casa, passar os dias na Escola Técnica, ou como provocava o papai “latindo nas portas de fábricas”, não era fácil para ele, sem seu apoio, jamais teria cumprido o papel que desempenhei na militância estudantil.

Os 33 anos de distância em São Paulo, os anos que voaram como um piscar de olhos. Desde 1989, os nossos encontros em Fortaleza, na Santa Maria (Bela Cruz), em São Paulo, na posse da Dilma, em Brasília, nosso amor comum pela esquerda, sorte de ter influenciado a senhora e alguns mais, sempre foram de tanto amor e saudades.

As nossas perdas, o seu velho, nosso amado pai, meu querido amigo e cunhado, José Francisco, depois minha doce Letícia. São anos duros, que vamos vencendo, assim como vamos vencer seu atual momento, suas dores, nesses 80 anos de uma mulher gigante, uma mãe, como todas as mães, maravilhosa e amada.

Muito obrigado, por ser seu filho.

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