A Cidade Antiga – Grécia e Roma

Delfos – foto Claudia Bins blog Mosaicos do Sul
Delfos – foto Claudia Bins blog Mosaicos do Sul

 

Convido meus amigos a mergulhar num texto espetacular, primeiro, o primoroso prefácio do Livro A Cidade Antiga de Numa Denis Fustel de Coulanges. Esta introdução, feita por ele, elenca, com exatidão, a impossibilidade comparar às sociedades atuais(no caso a dele 1864) com as sociedades gregas e romanas. Os termos tão bem localizado são extremamente válidos, agora, 149 anos depois. A curiosidade histórica, do texto, tão bem escrito, provoca um sentimento de prazer na leitura difícil de descrever.

O livro, aqui em PDF ( cidade antiga), pode ser lido na íntegra, vamos apenas começar a “ler” a introdução, para incentivá-los a ler ou reler, é uma obra grandiosa, que não adianta googlar, tem que queimar pestanas mesmo. Este prefácio parece um post de blog, mas, claro, com texto muito bem elaborado. Passemos ao que nos diz Fustel de Coulange no “PREFÁCIO –  DA NECESSIDADE DE ESTUDAR AS MAIS VELHAS CRENÇAS DOS ANTIGOS PARA CONHECER SUAS INSTITUIÇÕES” .  Assim, ele já apresenta a questão fundamental, sobre o que somos e o que temos de comum com a Cidade Antiga, hoje(1864):

“É nosso propósito demonstrar aqui os princípios e regras que governaram as sociedades grega e romana. Reunimos em um mesmo estudo romanos e gregos porque esses dois povos, ramos de um mesmo tronco, falando idiomas originários de uma mesma língua, possuíam também um fundo de instituições comuns, e atravessaram uma série de revoluções semelhantes.

Cuidaremos, sobretudo, de pôr em evidência as diferenças radicais e essenciais que distinguem de modo definitivo esses povos antigos das sociedades modernas. Nosso sistema educacional, que nos obriga a viver desde a infância entre gregos e romanos, habitua-nos a compará-los continuamente conosco, a julgar sua história pela nossa e a explicar nossas revoluções pelas suas. O que ainda conservamos deles, e o que eles nos legaram, faz-nos acreditar que se assemelhavam a nós; temos dificuldade em considerá-los como povos estranhos; quase sempre não vemos neles senão a nós mesmos, o que deu origem a muitos erros. Quando estudamos esses povos, antigos através das opiniões e fatos de nossa época, quase sempre nos enganamos”.

Não satisfeito ele é mais enfático:

“Ora, os erros nessa matéria são perigosos. A idéia que se tem da Grécia e de Roma muitas vezes perturbou várias de nossas gerações. Observando mal as instituições da cidade antiga, quiseram fazê-las reviver entre nós. Fez-se idéia errada da liberdade entre os antigos, e somente por isso a liberdade entre os modernos foi posta em perigo. Nossos últimos oitenta anos demonstraram claramente que uma das grandes dificuldades que se opõem à marcha da sociedade moderna é o hábito de ter sempre diante dos olhos a antiguidade greco-romana”.

 

E vem ao leito definitivo, objeto do magnífico estudo, deste livro fundamental para conhecer as instituições, costumes, a fonte de direito e de conceitos elementares de democracia e organização social, além de formação política, o Estado até o estágio superior, o império. Leiamos, esta prévia e quem sabe se animem à aventura da leitura completa do livro. O autor vai ao ponto:

“A história da Grécia e de Roma é testemunha e exemplo da estreita relação que há entre as idéias da inteligência humana e o estado social de um povo. Observai as instituições dos antigos, sem atentar para suas crenças; achá-las-eis obscuras, Bizarras, inexplicáveis. Por que havia patrícios e plebeus, patrões e clientes, eupátridas e tetas, e de onde vêm as diferenças nativas e indeléveis que encontramos entre essas classes? Que significam essas instituições lacedemonianas, que nos parecem tão contrárias à natureza? Como explicar essas bizarrias únicas do antigo direito privado: em Corinto e em Tebas, proibição de vender propriedades; em Roma e em Atenas, desigualdade na sucessão entre irmão e irmã? Que é que os jurisconsultos entendiam por agnação ou gens? Por que essas revoluções no direito e na política? Que patriotismo singular era aquele que apagava todos os sentimentos naturais? Que se entendia por liberdade, da qual não cessavam de falar? Como é possível que instituições, que se acham tão afastadas de tudo o que podemos imaginar, possam hoje estabelecer-se e reinar por tanto tempo? Qual é o princípio superior que lhes deu autoridade sobre o espírito dos homens?

Mas, à frente dessas instituições e dessas leis, colocai as crenças, e os fatos tornar-se-ão claros e sua explicação tornar-se-á evidente. Se, considerando as primeiras idades dessa raça, isto é, a época em que fundou suas instituições, observamos a idéia que fazia então da criatura humana, da vida, da morte, da segunda existência, do princípio divino, percebe-se íntima relação entre essas opiniões e as regras antigas do direito privado, entre os ritos que se originaram dessas crenças e as instituições políticas”.

 

A leitura que Fustel de Coulanges é brilhante e extremamente perspicaz,  compondo, assim, ao lado de Werner Jaeger e sua Paideia, os mais ricos retratos das sociedades gregas e romanas. Neste tempo tão cheio de “espuma” ou líquido, de conhecimento ralo, voltar a um grande clássico, ajudará, nem que seja por curiosidade, a entender o passado, sem querer  voltar a ele, mas também a compreender o presente, alguns de nossos costumes herdados de lá, que nem percebemos, mas repetimos à exaustão.

Boa aventura. Um capítulo por dia, não dói nada.

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