Dr Odeon, A Medicina e a Arte do Humanismo

Purifica tua mente e teu corpo estará curado”.

 

No final dos anos de 1970 conheci um Médico, não qualquer médico, ele era o cara que salvara minha mãe e minha irmã mais nova no difícil parto, uma cesariana, algo raro naquela época, principalmente no interior do Ceará. Deste fato, logo se tornou padrinho dela e um eterno amigo da família. Mas pouco sabia quem era aquela figura exótica que aparecia de vez em quando na nossa casa, passava o dia deitado num tucum, com um copo de cachaça do lado e atendendo freneticamente os pacientes, nem se importando com qualquer valor recebido e se pagavam ou não.

Dr Odeon não era um  médico, ele era muito mais, era um Bruxo, era um xamã, um cara de uma sensibilidade impressionante, muitos o viam como um Chico Xavier, era espírita também. Ainda moleque o via falar com os paciente sobre os males apenas ao olhar os olhos  daquelas pobres almas que vinham em romaria à nossa casa. Lembro que eram dias de festas, as pessoas entravam e saiam daquele consultório absolutamente informal. Ele as atendia, dava carões homéricos, das mulheres que engravidavam demais, que eu ouvia assustado ou rindo. Naquela época ele era um transgressor total, andava com uma bela mulher bem mais jovem, que soube depois era uma afilhada que virara secretária, namorada, mulher, imaginem o choque que causava.

O velho Dr Odeon, alcoólatra assumido, com a pele tomada pelo vitiligo, muitas vezes assustava os pacientes, mas a fama de curandeiro, de gente do povo, amenizava e atraia pequenas multidões, não havia médicos no interior, continuam não tendo. Ele acordava e pedia uma garrafa de café e seu litro de cachaça, atendia um a um, pobres, remediados e ricos com o mesmo zelo, com o mesmo toque. Invariavelmente ele tomava o pulso, refletia e dava remédio, como se tratar, dificilmente perguntava a doença, ele lia no semblante, no pulso o que cada um tinha. Pelo fim do dia, já bêbado, parecia que aguçava mais ainda sua sensibilidade, certa feita uma mulher chegou com dores, repetiu seu procedimento e recitou-lhe um remédio. Ela se foi e voltou noutro dia cedo e solicitou nova consulta, já que ele estava sóbrio, ele refez o procedimento e deu o mesmo remédio, disse as mesmas frases de quando estava alcoolizado.

O pagamento era galinha caipira, ovos, doces, dinheiro, promessas (nem sempre pagas) e para nós a certeza de que seria uma semana de muitas novidades. Os causos do Dr Odeon dariam livros de tanta coisa que aquele homem fez sem recurso algum. Um homem extremamente sofisticado, culto, uma inteligência de espantar, mas que sabia usar as palavras dos mais simples quando se comunicava com eles. Saiu de um bom emprego na época da ditadura e foi para o interior medicar sem se preocupar com nada, com posses, bens, carrões, luxo. Aquele homem era um efetivamente um Médico, mas acima de tudo um cidadão, um humanista.

Uma figura inesquecível, pensando nele agora, passa um pouco do meu profundo desprezo por estes homens que vestem jaleco brancos com símbolo de hospitais ou faculdades, que muitas vezes deixam um jaleco reserva nos seus SUVs como forma de mostrar seu status, sua superioridade. A grande maioria jamais entenderá Asclépio (Asclépio – o Deus da Medicina), Epidauro ou juramento de Hipócrates, visto hoje como uma mera tradição sem valor.

4 thoughts on “Dr Odeon, A Medicina e a Arte do Humanismo”

  1. Realmente um grande médico, um grande homem…tenho orgulho dele, aliás meu padrinho!!!morria de medo dele quando criança aquele vozeirão…rrsrsrsrs HOJE , não temos mais médicos como ele…infelizmente!!!

  2. Acho q muito de nós temos uma história assim, eu em 84 fui salvo por um grande médico na época do INPS Dr. Washington. Mas, mais um ótimo artigo de Arnóbio!!

  3. Meu querido Arnóbio,, sua mente é realmente brilhante, falar em Dr. Odeon é algo que falta as palavras,além de ter curado (salvado) nossa mãe e irmã, acompanhou toda doença de nossa avó Benedita Rocha, até seu falecimento.
    Dr Odeon era uma figura ímpar, que muita falta faz, hoje, nessa nossa sociedade cada vez mais cruel, para com os menos favorecidos. Além de todas as qualidades que você tão bem ressaltou, vale lembrar que ele era casado e morava no Rio de Janeiro, onde sua esposa era da sociedade, com bens materiais, mas ele largou tudo, inclusive os filhos,, e veio peregrinar em sua terra ajudando a todos aqueles que precisavam, não importando a hora.
    Como lembrar desse grande homem e não lembrar das tantas vezes que escutava seu cantor preferido Roberto Carlos, sua Amada Amante , Detalhes e tantas outras.. Infelizmente o mudo carece de MÉDICOS como ele, pois o juramento feito na sua formatura foi cumprido fielmente ate sua morte.Viveu tudo o que tinha direito,era realmente mais um Chico Xavier da vida que viveu em prol do próximo.

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