Não Há Mal Que Não Traga Um Bem

O Emprego nosso de cada dia

 

No fim de tarde de um dia frio de inverno, um 6 de agosto, toca o ramal, chefe chama na sua sala, algo raro, naquela fábrica de remédios(Ciba Geigy, hoje Norvatis) em que trabalhava na manutenção do sistema de telefonia. Tinha um ano e dois meses que estava ali, nas poucas vezes que tinha sido chamado por ele, sempre pela manhã. Mas naquele dia era quase fim do dia, ao entrar na sala, o olhar dele era grave, pediu para sentar e disse:

– Você faz um ótimo trabalho aqui, pôs em ordem a telefonia, mas o seu futuro não é neste tipo de empresa, estou te mandando embora, você vai ficar chateado, porém em pouco tempo vai me agradecer.

Fiquei calado, não sabia o que dizer, tinha 24 anos, recém-casado, cheio de planos, aquela notícia me pegou de surpresa. fazia pouco tempo que estava ali, na verdade tinha mudado de emprego, um ano antes porque viajava muito e não queria mais viagens, estava querendo casar. Na Ciba Geigy, em Taboão da Serra, era um trabalho tranquilo, salário compatível, além de ter muito tempo para ler entre um chamado e outro. Mas o chefe tinha razão, ali não tinha qualquer futuro, era apenas um trabalho menor, o foco da empresa era remédios, não telecomunicações.

Mas a sensação de derrota, ser mandado embora, marcará o dia para sempre. Vinte anos depois, passando o que já passei, sem dúvida que o conselho que recebi estava mais do que certo, difícil mesmo foi digerir aquela notícia, a sensação de chegar em casa desempregado, as dúvidas terríveis. Naquele longínquo 1993, a situação  do Brasil era péssima, queda do Collor, Itamar num governo fraco, a economia mal das pernas, grande desemprego, tudo isto me deixou assustado. A possibilidade de voltar ao emprego anterior era grande, mas significava viajar, não queria ficar nesta situação.

Um mês depois acertei trabalhar por demanda na antiga empresa, apenas em obras que fossem em São Paulo, como havia um CARTEL na Telefonia, a Nec não pegava obras em São Paulo, era área da Ericsson, dificilmente poderia ficar por aqui, mas havia pequenos trabalhos, uma espécie de disfarce na “divisão do bolo” no Cartel. Os acordos antigos, da época da ditadura, permaneciam firmes e estavam mais fortes sob a condução de ACM. Aquilo me valeu por uns quatro meses. Em janeiro de 1994 migrei para área de Telefonia Celular, aí os velhos acordos não vingavam mais, pude então passar maior parte do tempo em São Paulo, com temporadas no Japão, Bahia e Rio de Janeiro.

A lição que ficou para sempre é que entendi as palavras do meu avô que dizia: “não há mal que não traga um bem”. Só depois pude perceber a justeza da frase. Muitas vezes encontrei meu ex-chefe, que me mandou embora, numa padaria perto de casa, por descuido ou vergonha, nunca lhe agradeci, ele sempre baixava a cabeça quando me via, não sei se por vergonha, pois foi mandando embora logo depois também. E ficamos assim. Aqui, hoje, posso agradecer suas sábias palavras.

4 thoughts on “Não Há Mal Que Não Traga Um Bem”

  1. Difícil, aos 24 anos, imaginar que um mal (o desemprego naquele momento) pudesse ser um sinal de que outros caminhos, mais promissores, poderiam ser trilhados.

    Talvez seu avô pudesse ter razão num sentido mais amplo, o ‘de um limão fazer uma limonada’. Mas na dureza cotidiana da vida, Marinilda tem razão: há males irremediáveis…

    Belo depoimento, Arnobio. Parabéns! Abraço fraterno!

  2. OI, MEU IRMÃO…DA PRÓXIMA VEZ QUE O ENCONTRAR AGRADEÇA…E DIGA QUE ELE ESTAVA CERTO…VOCÊ MERECIA COISA MELHOR!!! CONCORDO COM NOSSO AVÔ NÃO HÁ MAL QUE NÃO TRAGA UM BEM!!!BEIJOSSSS

Deixe uma resposta

%d blogueiros gostam disto: