House of Cards – O Poder Invisível


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O carnaval foi bastante interessante, pois dormi, recuperei as forças e, claro, vi muitos filmes e a série “House of Cards”. Dos filmes falarei outro dia, nada muito especial, mas a série especial do site Netflix é espetacular, vi as duas temporadas de uma tacada só. É de tirar o fôlego, extremamente bem feita, excelentes atores, um tema atualíssimo, todos ingredientes ali juntos, combinando atuações e ótimos diretores, pois foram vários, sem que nenhum episódio perdesse o interesse, ou fosse cansativo.

O criador da série Beau Willimon, já tinha feito excelente trabalho como autor e roteirista do filme “Tudo Pelo Poder” ( The Ides of Marh – baseado na sua peça “Farragut North”), em 2011, estrelado e produzido por George Clooney. Willimon então foi contratado pela MRC (Media Rights Capital) e preparou o roteiro de  House of Cards que é uma adaptação do romance escrito por Michael Dobbs e da minissérie britânica criada por Andrew Davies. Com o roteiro do piloto pronto selecionou um time de primeira, encabeçado por Kevin Spacey, um dos maiores atores da atualidade. Aliado a Willimon, David Fincher foi o grande executivo para que a série fosse ao ar, ele que já tinha dirigido a primeira parte da versão norte-americana do filme político Millennium, antes já tinha feito Seven, Clube da Luta. Fincher dirigiu o piloto e os primeiros episódios.

Para quem não viu as duas temporadas, pode ler o artigo, pois não vou entrar nos detalhes para não perder a graça. Apenas direi que ao ver as duas temporadas não conseguia deixar de pensar em Ricardo III e em Macbeth. Por coincidência soube depois que durante a preparação das filmagens, Kevin Spacey, encenou no teatro justamente Ricardo III, o que lhe serviu intensamente para desenvolvar o seu papel, o inescrupuloso, Frank Underwood, em House of Cards. O que me leva a crer que a estonteante Robin Wright deve ter se inspirado em Lady Macbeth, pois nada distante dela pode se perceber em sua atuação.

O centro da série é o Poder Político nos EUA, todas as armações e conspirações dos bastidores do congresso e da Casa Branca. As jogadas são pesadas, a mistura de lobistas e velhas raposas que controlam a podridão do poder, nada ali são de graça, os valores são trocados e aferidos em cada votação, em cada projeto, independente do que acontece no país. É uma verdadeira aula, como seria interessante que os indignados seletivos brasileiros pudessem assistir, pois, quem sabe, o pudor moralista e sua repugnância ao poder brasileiro fosse posto à prova. A ritualística de um poder que funciona à base da barganha é mostrada sem filtros, de tão verossímil chega a espantar.

O Poder em toda sua amplitude, as empresas e os grupos econômicos que controlam bancadas inteiras, como parte seus negócios, de seus lucros. Os deputados e senadores dominados pelos lobbies, os mais variados que jogam um jogo bruto, com ameaças de perda de mandato com a negação de futuras verbas para suas campanhas eleitorais nos seus distritos, nos seus estados. Os Governadores dos estados e Presidentes são reféns das grandes empresas, sem autonomia de decisão, nada escapa ao poder econômico, nada mesmo, nenhuma vírgula de leis ou decretos. Claro que a guerra entre as empresas, se expressa nos comportamentos dos agentes públicos e privados no balé do parlamento e da presidência, está tudo lá.

Sem dúvida é uma série que merece ser vista e discutida, como se assemelha à democracia no mundo do Kapital, esqueçam Washington ou Brasília, pode pensar em Berlim ou Londres, os jogos e as trapaças serão as mesmas, o simulacro de representação estará aos seus olhos, sem precisar de mais lentes. Este é o grande mérito da obra, tornar aberto ao público mais amplo o que acontece nos bastidores do poder, do distanciamento proposital do poder, de como os políticos são apenas fantoches das grandes empresas, mas que têm que “apanhar” dos eleitores, para esconder a quem realmente os mantém, de como o poder real não pode ser visível.

Para além de tudo isto, as interpretações, as imagens, a beleza de como foi feita a série, o roteiro muito bem elaborado, os diálogos, tudo muito caprichado, um maravilhoso espetáculo, simplesmente imperdível.

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