Repetição Literária.

Os bons e velhos livros na nossa memória literária.
Os bons e velhos livros na nossa memória literária.

Enquanto escrevo, ali no Youtube toca “A Whither Shade of Pale”, numa performance fantástica de King Curtis, outro presente do meu amigo Ricardo, quando soube que gostava da música, ele me enviou esta verdadeira joia. A música de fundo embaralhou algumas ideias e tornou bem mais claras outras, pois o que pretendo escrever ou reescrever é sobre a repetição, as múltiplas visões sobre um determinado fenômeno toda vez que olhamos para ele, ou quando lemos de alguém, outra relação com ele.

Nestes dias estava lendo uma pequena brochura de Harold Bloom, crítico literário e grande conhecedor dos clássicos, um eterno apaixonado por Shakespeare, talvez seja esta a razão de relevar suas posições conservadores, pois, com ele, abro minha mente e releio algumas obras do bardo inglês, partindo de outras premissas. Bloom repete-se, mas sem deixar de me encantar, leio-o muito, sei de seus gostos, suas idiossincrasias, a cada texto ele vai jogando mais e mais referências, nos trazendo autores, obras e entrelaçando as épocas, cujo fio condutor é o Homem.

As reflexões de um grande crítico, com enorme experiência acadêmica, ótimo polemista, na maioria das vezes nos devolve duas coisas: A primeira, nosso pouco saber, a segunda, que temos muito a estudar. Uma coisa está ligada diretamente a outra, acaba servindo como estímulo pela busca do conhecimento, da investigação e a descoberta de novos autores e de suas obras. Fica claro também que o tempo que tenho é inversamente proporcional à grande tarefa de leitura que tenho pela frente, procurarei mediar, desejo e vontade, com a realidade concreta de vida e responsabilidades profissionais.

Uma saída é ler e reler de forma mais aprofundada alguns autores que já tenho intimidade, tornar ainda mais íntima suas obras, ir além da leitura corrida e tentar entender um pouco mais através da repetição, quem sabe reter mais do que foi escrito, não me satisfazendo apenas em “conhecer” de forma mais superficial. Reduzir o campo, escolher apenas alguns escritores e/ou obras, para melhor explorar o que efetivamente se conhece. É fazer o caminho inverso do que se busca hoje em dia,  que é ter contato superficial com autores e obras, apenas para dizer que se leu, ou tomou nota sobre eles.

A repetição na leitura, na música, no cinema, nas artes pode ser um caminho que melhor me satisfaça no desejo de me familiarizar com as obras que mais estimo. A antiga preocupação de grandes descobertas, de saber de tantas coisas, será substituída por uma curiosidade mais apurada, de me tornar efetivamente íntimo de uma obra, de uma escola ou de um pensamento. O diálogo com outras obras e autores se dará em níveis diferentes, alguns, por afinidades eletivas, serão mais cultivados, outros nem tanto, sem prejuízo do todo.

Vou aceitar meus limites intelectuais, mais ainda, meus limites físicos, de vida, de tempo e  de lugar. Este é apenas meu caminho, uma quase uma ruptura com a “(de) formação Google”, mas que me dará mais prazer, com certeza deve haver outros caminhos.

Por enquanto é isto.

King Curtis – A Whiter Shade of Pale

Imagem de Amostra do You Tube

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