Anjos e Demônios, a Catarse Nacional.

O Supremo conselho infernal ( Gustave Doré – Ilustração para o Paraíso Perdido).
O Supremo conselho infernal ( Gustave Doré – Ilustração para o Paraíso Perdido).

“Nesta suprema altura mais me firmam
Pois que num sólio estou da inveja a salvo.
Possuindo alto poder, honras, delícias,
Pode invejado ser dos Céus o trono;
Mas quem no Inferno invejará tal sítio”

Todos os dias me olho no espelho, portanto consigo ver claramente os anjos e os demônios que carrego em mim, não preciso ficar procurando por eles nas pessoas, na sociedade e no mundo. As coisas boas e más, ou melhor, o bem contra o mal, esta dicotomia temos dentro de nós mesmos. Aliás, lutamos dia a dia contra as nossas antinomias. Afinal, aos  46 anos, não posso dizer que seja velho, muito menos que seja novo, talvez no ponto certo, para entender essas contradições próprias do ser humano.

Ali, em frente ao espelho, a melhor memória que me vem à mente, quase sempre é a do Canto II do Paraíso Perdido Os demônios discutindo como tomar o “poder”, o “céu”, alguns querem a guerra aberta, outros deixar como estar, para ver como fica. A terceira opção, a de Satã, é verificar se Deus cumpriu a promessa de um novo mundo, habitados por criaturas menores (ou seja, nós – nem anjos e nem demônios), pois naquele novo espaço, a disputa seria muito mais profícua do que no “céu”.

Os desenho geniais de Gustave Doré deram outra dimensão visual ao poema absolutamente perfeito de John Milton. É como se ele renascesse ainda mais forte e estranho, pois o estranhamento é a verdadeira força arrebatadora de um clássico, sem ele, seria apenas mais um grande livro, com ele (o estranhamento), a leitura vira um ato de fé na genialidade humana.

A sincronia de poesia escrita e essa em forma de desenho torna o clássico mais pujante e nos faz perdidamente apaixonados por ela. As reflexões sobre nossa criação, dadas por um pio, seduz até mesmo o mais ímpio ou agnóstico, pois ali, no Paraíso Perdido, o que se busca é de como somos feitos, não a cosmogonia, a alegoria cristã, mas a natureza interna e a essência do homem, a dualidade inata que nos define, a contradição original, sem nenhum maniqueísmo.

É tão especial para a vida humana a identificação do mal em alguém, ou numa causa, para quem sabe nos escondermos do que realmente somos. A sensação de satisfação, catarse, risos nervosos comemorando: “ah, prenderam o Dirceu, aquele maldito malfeitor, maligno”. Pronto, todos nossos problemas momentâneos acabaram, a sociedade está curada.

A complexidade das pessoas, os amplos interesses, de lado a lado, jamais nos permite reduzir a realidade à cinza, como nos ensina Goethe “toda teoria é cinza, verde e frondosa é a árvore da vida”.

Recorrer aos clássicos, alguma coisa que nos alimente de conhecimento, discernimento e fé na vida, pode nos ajudar a enfrentar o caos diário, as frustrações elementares de uma realidade cada vez mais complexa e contraditória, em que os baixos instintos alheios, não podem dirigir a vida humana, dar razão a letra fria e as oportunas manipulações de uma lógica perversa e não linear, onde se separa seletivamente a quem julgar, condenar e transformar em vilão nacional e símbolo de todo mal, parece um consenso.

Absolutamente não é de minha natureza fazer juízo de valor e julgamentos prévios, ou seguir as manadas contra um alvo, uma vida, em especial as produzidas pela mídia ou por redes sociais, com o objetivo de destruir uns, para alimentar os “justiceiros” de ocasião, criar heróis que, mais uma vez repito, dificilmente resistiria à luz do sol.

Essas coisas começam como uma festa, com júbilo e acabarão em tragédia, antes de farsa, elas viram método de ação, o maior punido será você, que hoje comemora.

As trevas desceram sobre nós.

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