Perséfone, o Poder Feminino.


O rapto de Perséfone por Hades, o ritual da fertilidade e vegetação.

Bem-aventurados os mortais que, após terem contemplado os Mistérios,
vão descer à outra vida. Ali, somente eles viverão;
os outros só terão sofrimentos.
(Sófocle, fr. 753)

A deusa cretense, Perséfone, foi assimilada ao grande mito grego, no novo sincretismo em que Zeus vai sendo conduzido ao máximo Poder (já tratamos disso no post: Zeus Pai : O Deus Estado) cuja função estatal é irresistível, a superação paulatina das deusas-mães, do feminino para o masculino. O Macho que toma o poder e decreta o fim da igualdade de gênero, uma nova ordem é imposta à sociedade: A do Estado e do Homem.

No novo panteão grego, a cretense Perséfone tem como mãe, Deméter, a deusa grega da vegetação, em união com Zeus, o deus-pai (Júpiter), aquele que fertiliza, a função do Deus maior é ser fértil, a virilidade, a capacidade de reprodução, de dar frutos e de que nada falte, ter muitos filhos na Grécia antiga ou no sertão nordestino é símbolo de força e poder.

Entretanto, como nos ensina Junito de Sousa Brandão:

A dupla formada por Deméter e Core é uma junção muito frequente em Creta, de uma deusa mãe e de uma jovem (Core significa jovem) filha. O rapto de Core por Plutão, rei do Hades, e a busca da filha pela mãe relembram as cenas de rapto muito frequentes no culto cretense da vegetação. A junção, todavia, de Core, a semente de trigo lançada no seio da Mãe-Terra, Deméter, com a lúgubre Perséfone, rainha do Hades, é deveras estranha, mas ambas, mercê do sincretismo, constituem a mesma pessoa divina.

A questão do rapto de Perséfone, como de Helena e tantas outras, Europa, Leda, as Sabina, fazem parte do ritual de iniciação do “casamento”, mas fundamentalmente do rito da vegetação, dos frutos que serão enterrados na terra para um nova colheita, sendo esses raptos feitos no outono, a preparação para o longo inverno, o ressurgir na primavera e a plenitude do verão.

A representação do casamento de Perséfone (Core) que sumirá da terra e tem suas núpcias com Hades, desse enlace, novas vidas e a futura alimentação do povo campesino, garantido assim a fertilidade da terra, o seu sacrifício, de Perséfone, é essencial para a vida na sociedade, é também a certeza de que o ciclo da natureza, as estações específicas bem definidas do hemisfério norte.

Ainda sobre rapto, casamento, ritual, voltamos ao nosso mestre Junito

Na Grécia, no segundo ato do casamento, denominado pompé, “ação de conduzir”, a noiva, seguida de uma procissão alegre e festiva, é levada ou por arautos ou pelo marido, da casa paterna para seu novo lar. Não podendo penetrar com seus próprios pés na nova habitação, porque o fogo sagrado do lar ainda não fora aceso, a noiva simula uma fuga e começa a gritar, pedindo o auxílio das mulheres que a acompanham. O marido terá de raptá-la e com ela nos braços atravessa a porta com todo o cuidado, para que os pés da esposa não toquem na soleira.

Ainda no lembra Junito, assim com Fustel de Colange, no seu A Cidade Antiga, de que :

No casamento romano, muitíssimo semelhante ao grego, não por  imitação ou sincretismo, mas pela origem comum indo-européia dos dois povos, repete-se o mesmo ritual. A segunda parte, denominada deductio in domum, ação de conduzir ao lar, quando o cortejo para em frente à casa do marido, a noiva simula a fuga e, raptada pelo marido, transpõe nos braços do mesmo a soleira.

A imitação hoje, no presente, de entrar com a noiva nos braços é uma referência, ainda que inconsciente dos rituais antigos, como também o rapto da noiva, nas celebrações dos casamentos das festas juninas. É importante lembrar dos frutos servidos para garantia da fertilidade, especialmente as sementes de Romã, tão identificadas com Perséfone.

Perséfone significa a morte da semente quando é enterrada na terra, sua katábasis para junto de Perséfone e a consequente anábasis, subida de volta, renascimento, ressurreição, cumprido o ciclo da vegetação e da natureza, o mito da semente. Ora, se Perséfone simboliza a “morte”, Afrodite (o amor-do-pênis) é o oposto, simbolizando a “vida”.

O mito comum entre elas, Perséfone e Afrodite, as deusas do ciclo da semente,  é de Adônis e sua morte/ressureição, mais uma vez Junito:

Na Grécia da época helenística deitava-se Adônis morto num leito de prata, coberto de púrpura. As oferendas sagradas eram frutas, rosas, anêmonas, perfumes e folhagens, apresentados em cestas de prata. Gritavam, soluçavam e descabelavam-se as mulheres. No dia seguinte, atiravam-no ao mar com todas as oferendas. Ecoavam, dessa feita, cantos alegres, uma vez que Adônis, com as chuvas da próxima estação, deveria ressuscitar.

Perséfone é também conhecida como o “grão da vida”, aquelas que morre no tenebroso inverno, servindo ao seu marido que vive no mundo inferior, o deus do infernum, o Hades, mas retorna ao convívio da mãe (natureza) pelo resto do ciclo anual.

Perséfone representa essa dualidade e complexidade do feminino que cumpre o papel de fertilidade e ao mesmo tempo de fruto, desejo e vida, não é a toa que Perséfone faz parte dos mistérios de Eleusis, um dos ritos femininos e de grande significado por retomar o Poder às mulheres, perdido na sociedade política, do Estado, mas mantido no inconsciente coletivo do povo.

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