Marcha Noturna pela Democracia Racial e a Violência Higienista de São Paulo


XXVI Marcha Noturna Pela Democracia Racial (SP, 12/05/2022)

“Só fica escravo aquele que tem medo de morrer sobre donos“ (Zumbi dos Palmares)

Ontem a noite, 12/05/2022, tive o prazer de representar, junto com ítalo Cardoso, a Comissão de Direitos Humanos do Sindicato dos Advogados de S. Paulo (SASP), e acompanharmos, a XXVI Marcha Noturna pela Democracia Racial, uma ação histórica de diversos coletivos e movimentos negros de São Paulo, na véspera da data da “lei áurea”, uma celebração própria de protesto e marco de luta antirracista, pela reparação e de afirmação da cultural.

Nesse ano de 2022, dizia o release de convocação, que o tema é pela manutenção da lei de Cotas:

“As leis de cotas raciais devem ser revisadas a cada 10 anos, processo que em 2022 pode extinguir essa conquista. Criada em 1996 por várias entidades do  Movimento Negro paulistano, a Marcha Noturna pela Democracia Racial é uma das iniciativas responsáveis por avanços como esse. Por isso o tema da Marcha deste ano é “As cotas ficam”, contra todo tipo de retrocesso e de retirada de direitos.”

A concentração foi feita na Praça da Liberdade, na fria noite paulistana de outono, em frente à estatua de “Madrinha Eunice”, recém inaugura, em 02 de abril, em homenagem à fundadora, em 1937, e presidente da Lavapés (hoje, Lavapés Pirata Negro), a mais antiga escola de samba em atividade de São Paulo. Observei que a estátua não tem identificação ainda, uma falta de respeito da prefeitura de São Paulo.

Pouco a pouco a praça foi ganhando corpo, a ala das baianas da Vai Vai, jovens e velhas lideranças negras, se abraçam, batem fotos em torno da estátua, uma celebração forte, os cantos, as falas potentes, algumas autoridades ligadas aos movimentos negros, como o Deputado Vicentinho (PT), a Vereadora Juliana Cardoso (PT), o Mandata Coletiva Quilombo Periférico do PSOL, além das entidades como UNEafro, UNEGRO, MNU, CONEN, CNAB, UNA.

A marcha seguiu um itinerário pelo centro velho de São Paulo, com uma verdadeira aula de história, que era ministrada pelo historiador Abílio Ferreira, a cada ponto de parada, contando o que era cada local, os nomes antigos, iniciado ali na Praça da Liberdade, na importante estátua, naquele local que era a Largo da Forca terminando no Largo do Paissandu.

“Do antigo Largo da Forca, atual Praça da Liberdade, onde eram executadas as pessoas criminalizadas e condenadas à pena de morte pelo regime escravista, a Marcha seguirá até o Largo do Paissandu, endereço da Irmandade e da Igreja de Nossa Senhora do Rosário dos Homens Pretos desde 1904, quando foi desalojada do Largo do Rosário, seu espaço de fundação no início da década de 1720, renomeado de Praça Antonio Prado, primeiro prefeito de São Paulo, entusiasta do projeto de Brasil europeu até hoje vigente no país.”

O percurso noturno, as tochas acesas, os cantos entoados, as falas, e as aulas de história compartilhada, não apenas pelo Abílio Ferreira, mas por todos que falavam, contando das lutas dos movimentos, do significado das ruas, monumentos, as escadarias do Teatro Municipal que em 07 de julho de 1978 viu nascer o Movimento Negro Unificado.

Como a história é dinâmica, a menos de um quilometro do final da marcha, uma operação policial violenta tenta expulsar os moradores do fluxo (vulgarmente conhecido como Cracolândia), produziu mais um morto, um homem de 32 anos. A operação com mais de 650 policiais envolvidos em mais uma ação higienista, que nem de leve toca o problema central da região, apenas alimenta mais violência e dor.

A energia recebida pela Marcha, os sonhos, os encontros, os abraços, rapidamente são tragados pela dura realidade de uma cidade injusta, racista e que ama a barbárie, vibra com a violência estatal contra os pobres, pretos (as) e miseráveis, excluído dos banquetes, vistos como coisas, que atrapalham o tráfego e a especulação imobiliária.

A cidade pulsa, expulsa, mata e continua racista e excludente.

MARCHA 2022 RELEASE

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