As Longas Noites…

A noite, lua e o sol se confundem na dor.

“longa é a noite que nunca acaba” ( Macbeth – W. Shakespeare)

Tem dias que não dar vontade nenhuma de acordar, a noite mal dormida já prenuncia ou melhor denuncia que você não deveria acordar mesmo, quem sabe ficar mais um três dias na cama. Esta foi uma típica noite/madrugada assim, tosse irritante que não parava, cada vez que tossia a dor na cabeça piorava, mas o que martelava mesmo era o sentimento de impotência, de pouco ou nada pudesse fazer contra os fados da vida.

Numa ordem cronológica destes eventos de impotência, desapontamento ou mesmo de derrota, sempre me vem a cabeça o dia anterior ao segundo turno das eleições presidenciais de 1989, um dia antes, na sexta, o debate final não foi bom, Lula estava muito cansado, cara de quem não dormia a muito tempo, uma série de comício e viagens pelo Brasil tinha dado o combustível para aquela arrancada. Mas, sua campanha, errara nos instantes finais, enquanto Collor saiu de circulação por 2 dias, treinou muito o debate, Lula chegara como se viesse da noitada. O debate não foi um massacre, mas também não fora favorável a ele. Entretanto, quando assiste o JN, a edição foi massacrante, a performance de Collor foi explorado ao extremo, realmente ele foi melhor, é fato, mas como colocado foi mais que um massacre. Naquela noite não dormi, em parte resolveu, pois ali me preparei para derrota. Só vim a me restabelecer, fazer as pazes com as eleições em 2002.

Anos depois, duas vezes seguidas (1999 e 2000), não dormi quando o Corinthians perdeu para o Palmeiras na Libertadores, a primeira derrota, era aceitável, mesmo nos pênaltis o time não merecia ir longe, não era tão bom. No ano seguinte, sim, o Corinthians , era muito melhor. Foram dois grandes jogos, no primeiro o time massacrou, mas cansou de perder gols, quase foi castigado, o resultado de 4 x 3 não refletiu o jogo. Na semana seguinte, o embate começou nervoso ao extremo, Palmeiras fez 1 x0, mas Luisão em grande fase fez dois gols. A cautela do Oswaldo Oliveira fez com que tirasse justamente Luisão, em duas bobeados na jogadas mais manjadas o Palmeiras virou: 3 x 2. Os pênaltis foram cruéis, Dida, goleiro do Corinthians era especialista em pegar pênaltis, não conseguiu pegar nenhum. Mas o drama foi Marcelinho Carioca, o ídolo do time, grande batedor de Pênalti acabou por consagrar Marcos. A noite não acabou, por vários anos e Libertadores, até 2012, ela me perseguiu.

Bem, as piores noite, não dormidas foram as de 11, 12,13 e 14 de junho de 2010, quando descobrimos que a Letícia estava com Leucemia, aquelas 4 ou 5 noites, pensei em não mais viver, a dor era imenso, TODAS as incertezas do mundo recaíram sobre mim. Simplesmente não tinha sono, o corpo doía demais, mas não conseguia descansar, era como se tivesse ligado total. O diagnóstico era prévio, precisava de um mais específico, que ia determinar o tipo da Leucemia e qual tratamento deveria seguir, que só foi ter no dia 15 de Junho. Algumas noites depois, em julho, também fiquei sem chão, quando ela foi para UTI. Desta longa noite que se iniciou naquele dia de abertura da copa do mundo, até hoje, raras são as noites que durmo e descanso, hoje estou um pouco mais aliviado.

Ontem, hoje, foi uma destas noites que não acabam, que nos torturam, fiquei lembrando de José Dirceu, que nunca tive qualquer admiração política ou afinidade ideológica, mas que reconheço seu papel e sua importância histórica, agora ali entregue aos seus mais canalhas detratores, gente que não tem uma única gota de honra a lhe enxovalhar, comemorando como se queimasse uma bruxa ou o diabo na fogueira medieval. Um triste tribunal, de que não precisou de provas e elementos materiais para lhe condenar, jogar às aves de rapina. Quando ainda era moço, preso, depois banido, conseguiu se reconstruir, o que lhe sobrará de vida, com seus mais de 65 anos? Os holofotes, de uma possível prisão, um cerco ainda maior de mídia, a lhe destruir o pouco tempo que lhe resta. Pensei no homem, a família, os ideais, que tanto se arriscou, que errou gravemente, sem dúvida, mas jamais lhe faltou dignidade e vontade de lutar.

Agora a pouco, li a carta da filha de Genoíno Neto no Blog do Nassif  ( A coragem é o que dá sentido à liberdade ), ele é meu conterrâneo, que depois de fugir da seca, foi à luta estudantil nos anos de chumbo. Dali foi ao Araguaia, numa paixão cega de uma tática equivocada, feito preso, torturado. A anistia lhe restituiu direitos cassados, não mais a juventude, fez-se deputado, dos mais atuantes, talvez o maior conhecer do funcionamento do congresso, que liderava uma minúscula bancada do PT e conseguia impor derrotas aos poderosos de plantão. Sua família mora aqui perto de mim, sem exageros de luxos ou valores milionários que lhe atribuem. A militância que lhe daria a honra maior no outono da vida, agora pode lhe render o cárcere.

Bem, são os riscos e as armadilhas da vida, pois a noite, a mesma que embala seus sonhos e o sono reparador, também pode lhe deixar acordado longamente, sentidos os horrores de suas dores.

0 thoughts on “As Longas Noites…”

  1. Estou perplexo com o STF. Ministros que condenam porque assim determina o senso comum (Rosa Weber); ministros que condenam porque a ex-mulher de Dirceu fez um empréstimo no Rural e Dirceu tinha que saber (Cármem Lúcia); ministros que não me dizem absolutamente nada de concreto a respeito da “compra de votos” chamada mensaláo. Difícil dormir em paz sabendo que isso aconteceu num país democrático.

  2. Me emocionei lendo, pois é exatamente como me sinto, impotente. Fico imaginando como sente um Dirceu ou Genoino, homens dignos que arriscaram suas vidas para que tivéssemos um pais democrático. Acredito que a maior dor do mundo é a injustiça e, mais ainda, a falta de reconhecimento. E ouvir um FHC e um Serra, que entregaram o país e meteram a mão no jarro, opinando sobre o mensalão.

  3. Arnóbio,

    O coração está pequeno diante de tamanha injustiça, não se trata de gostar ou desgostar de José Dirceu e José Genoino, trata-se de não negar o papel que tiveram na história do Brasil recente. Ao ler a carta da Miruna, que há anos foi minha colega de hidroginástica, não pude conter as lágrimas, e agora lendo seu texto de novo meu olhos ficaram úmidos. Não é possível que essa injustiça não seja reparada, temos que fazer algo, não vamos deixar que eles termimem suas vidas na cadeia, vamos??
    Abraços

  4. Lembro daquele debate, não assisti até o final, a raiva e a dor de cabeça não deixaram. Via um Lula emocionalmente abalado com o que fizeram com a filha dele. Mesmo com aquela tristeza imensa nos olhos ele debatia – e eu desejava que ele atirasse sapatada, chingasse a mãe, qualquer coisa que aquele monstro merececia. E ontem, a injustiça, o medo da reprise de um filme de terror, com as mesmas vítimas…Tive outras dores de cabeça e incontáveis noites de insônia, por outras dores pungentes, mas essas duas, meu amigo, nós partilhamos.
    E a Salmagnoni tem razão -> Nós não vamos deixar que eles terminem a vida na prisão, nem mesmo com a injustiça pesando nos ombros. Oxalá tenha servido para que despertassemos da letargia decorrente da nossa ingenuidade em acreditar no melhor das pessoas, e irmos às ruas exigir as reformas necessárias.
    Abs

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