Suspeição do Moro é o Fim da Era Antipolítica e do Ultraliberalismo no Brasil?

O histórico julgamento do ex-juiz Moro devolve a Política como princípio da sociedade democrática.

No dia 23.03.2021 é bem provável que o Brasil tenha encerrado um ciclo, o da AntiPolitica, visto de outra forma, a queda da lógica da judicialização da Política e da criminalização do fazer Política. Uma freio de arrumação para tentar devolver ao estado original, a separação entre os poderes da República, bem como o rompimento do conluio mídia e judiciário, as condenações via TV foram derrotadas.

A decisão anterior de Fachin (surpreendente) de devolver os direitos políticos do ex-presidente Lula com a anulação das condenações impostas pelos neofascistas da República de Curitiba, porém ainda salvava as condutas criminosas da Lava Jato, era uma decisão apenas sobre a competência, mas os atos praticados ficariam intactos, o método da força tarefa estava preservado e poderia ser reutilizado em qualquer estado.

O julgamento da Suspeição do ex-juiz Sérgio Moro que, em conluio com procuradores e outros agentes públicos, fez do processo contra o ex-presidente Lula uma farsa, um troféu, visando condenar e retirar seus direitos políticos favorecendo o Golpe (impeachment de Dilma) e mais ainda a eleição do inepto Bolsonaro, não satisfeito, Moro, virou seu ministro, o “fiador da ética” do projeto aventureiro.

A importância desse julgamento na segunda turma do STF é vital para Democracia e para o Estatuto da Política, não é mera decisão, é uma vitória do Estado de Direito e se insere nessa nova perspectiva que se inaugurou no mundo, uma espécie de Reabilitação da POLÍTICA e da DEMOCRACIA, tentar arrumar o rombo no casco do Estado Democrático de Direito, passa fundamentalmente por acabar com a criminalização da Política.

Desde a crise de 2008 começou a se moldar um novo modo de gerenciar o mundo econômico e o Estado, o Ultraliberalismo, que elegeu a Democracia e a Política como seus inimigos, um novo Estado baseado apenas na força e coerção, usando as modernas formas de comunicações para desmoralizar pessoas, destruir biografias, intimidar defensores da justiça, dos Direitos Humanos e criminalizar as atividades sociais e políticas.

O novo Estado do Ultraliberalismo tem como fim a destruição da Democracia e da Política, ainda que a forma não seja explícita, mas todas as ações são para consignar esse objetivo. Sob nossa análise, a razão é a impossibilidade de conseguir pacificamente um novo arranjo de classe para que se inicie um amplo ciclo de expansão do Kapital.

Ora, numa época obscura, as forças mais conservadoras do Kapital lançam mãos de todas as armas para recompor suas taxas de lucro históricas, força vital de sua própria sobrevivência, como classe e para além dela, seu sistema econômico. A luta no âmbito da economia tem sua arena ideológica na sociedade, no estado e na sua expressão mais visível, a política.

LIBERDADE?

O mote desse movimento ultraliberal é a LIBERDADE.

Essa palavra encantadora e cheia de atrativos próprios elevada à enésima potência. Liberdade de falar o que quiser sem freio, sem o “politicamente correto”, sem se preocupar com gênero, diversidade sexual, questões raciais e regionais. A liberdade de não ter regras trabalhistas, obrigações sociais, sem preocupação com a velhice (eles que lutem), o que importa é a meritocracia, se não deu certo, é porque não tinha “competência”.

A Liberdade de negar a ciência, as formulações acadêmicas, as questões civilizatórias, o importante é como EU, indivíduo concebo, se a terra é plana, se a inquisição não existiu, que não houve escravos, nem holocausto, tudo isso é apenas OPINIÃO, “cada um tem a sua”. A Liberdade de negar os partidos, os movimentos políticos, sociais, as entidades e instituições.

Um pacote completo de Liberdade que juntou do Tea Party à parte da esquerda, uma política extremamente bem costurada pelo grande Kapital, um centro de comando bem definido e como multiplicaria pelo mundo esse conjunto de ideias simples e de fácil assimilação com ajuda dos algoritmos e difusão em redes sociais cada vez maiores e mais controladora do que se faz e do que se deve fazer (consumir, comportar, pensar).

E isso ganhou corações e mentes nos ventos das primaveras árabes, digitais, occupies, de que a internet substituiria as ruas, ou, por outra, ela definiria os desejos dos que iriam para as ruas, sem precisar mais de mediações das forças tradicionais, como os partidos, sindicatos, sociedade civil, acreditavam que não precisariam mais de eleições ou democracia representativa, tudo se resolveria no mundo virtual e imediatamente.

Alguns pressupostos pareciam dar razão àquele movimentos, que teve seu início no Brasil, nas jornadas de junho de 2013, mais de dois anos depois de iniciado no norte da África, indo à Europa e EUA. O que representa uma reação à dura realidade material da vida humana, com uma constante queda no padrão de vida, ausência do estado, violência e insegurança pública e medo de não ter emprego e/ou o ter o que comer.

Toda essa revolta real foi canalizada para negar o Estado, a Democracia e a Política. A lava jato é um resultado direto desse movimento, inclusive seu apoio entre artistas, jornalistas e até parte da Esquerda que via na lava jato a chance de destruir o PT.

O Judiciário foi fundamental ao movimente Liberdade, com seu poder ele perseguiu, que coincidência, toda a esquerda na América Latina, perseguindo, prendendo, ameaçando e/ou expulsando ex-presidentes como Lula, Cristina Kchiner, Correa, Evo Morales e até mesmo políticos de Direita como Sarkozy. A questão era a criminalização da Política.

Essa construção política dos falcões do governo Obama perdeu o controle e pariu Trump, Orban, Duterte, Bolsonaro, Macri, e a destruição do sobrou do Estado é visível.

Chegou ao fim do Ultralibalismo?

Os acontecimentos desses últimos seis meses, apressados pela mortífera Pandemia da COVID-19, que, não por mera coincidência foi negada pelos governos ultraliberais, o que levou Trump à derrota e pôs em xeque (a longo prazo) o governo Bolsonaro. Os eventos da invasão do Capitólio foram fundamentais para que parte de setores conservadores rompesse com a aventura radical.

Essas decisões do STF, o manifesto dos empresários, a situação caótica com 300 mil mortos em um ano de Pandemia e a economia tragada pela incompetência de Guedes, que apenas privilegia seu ciclo do Kapital com ganhos pornográficos, apontam para um novo momento.

Esses não são movimentos consolidados, mas apontam para uma tendência, uma inflexão política, o esgotamento de uma política radical, o Ultaliberalismo, que cumpriu um papel nefasto, mas deu imensos ganhos ao Kapital, com os novos trilionários, e a maior exclusão social. o ambiente ficou irrespirável, em particular com os eventos devastadores das mortes provocadas pela pandemia.

Um novo estatuto da democracia e da política será escrito? Quais os espaços possíveis de reconstrução serão efetivados? O estrago e as leis aprovadas aos borbotões antipovo em plena vigência, como serão enfrentadas, seus efeitos mitigados?

É lutar dia a dia por uma ruptura completa, pois o país beira ao Caos.

admin

Nascido em Bela Cruz (Ceará- Brasil), moro em São Paulo (São Paulo - Brasil), Técnico em Telecomunicações e Advogado. Autor do Livro - Crise 2.0: A Taxa de Lucro Reloaded.

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